PF seguiu secretário do Ministério do Trabalho em São Paulo

Agentes fotografaram Sérgio Vidigal em almoço com presidente da ONG Centro de Atendimento ao Trabalhador (CEAT), suspeita de desvio de R$ 18 milhões da pasta

Fausto Macedo, O Estado de S. Paulo

10 Setembro 2013 | 21h33

A Polícia Federal monitorou o secretário de Políticas Públicas de Emprego do Ministério do Trabalho, Sérgio Vidigal. Ele foi seguido por federais no dia 19 de julho, desde uma reunião até um almoço com a economista Jorgette Maria Oliveira, presidente do Centro de Atendimento ao Trabalhador — ONG sob suspeita de desvio de R$ 18 milhões de um convênio de R$ 47,5 milhões com a Pasta. O almoço ocorreu no restaurante Trindade, na rua Amaury, 328, na Vila Olímpia. Agentes da PF que vigiavam Jorgette e Vidigal ocuparam uma mesa ao lado e fizeram fotos de ambos.

As imagens do encontro entre Vidigal e Jorgette fazem parte do relatório de inteligência da PF que deu base à decisão da Justiça Federal para deflagração da Operação Pronto Emprego, na manhã da última terça feira, 3 - foram presos 8 investigados, inclusive Jorgette e Gleide Santos Costa, assessor do Departamento de Empregos e Salários (DES), vinculada à Secretaria dirigida por Vidigal.

Gleide e Jorgette foram presos em flagrante, por corrupção. Ele recebeu R$ 30 mil em dinheiro da presidente da ONG, por serviços de "assessoria", e foi capturado em um hotel no Centro de São Paulo.

Para a PF, o almoço mostra relações próximas de Vidigal com Jorgette.

À página 89 do relatório, a PF faz menção a um e-mail interceptado um dia antes. A correspondência tratava de uma ordem bancária. "Coincidência ou não, no dia seguinte à ordem bancária retratada no e-mail da página anterior, o secretário de Políticas Públicas de Emprego, Antonio Sérgio Alves Vidigal, esteve em São Paulo para visitar o Ceat e aproveitou o encontro para um almoço comemorativo na companhia de Jorgette Maria Oliveira, Ana César Franco e Alessandro Rodrigues Melo", assinala o documento da PF - Ana César é funcionária da ONG e Rodrigues Melo advogado da entidade.

Os federais seguiram Vidigal e Jorgette desde a manhã daquele dia 19, quando eles se reuniram na Unidade Dom Cláudio Cardeal Hummes, do Ceat.

Além de Vidigal participou do encontro Silvani Pereira, subsecretário de Políticas Públicas de Emprego do Ministério. Vidigal e Pereira vieram a São Paulo para fazer supervisão das unidades do Sistema Nacional de Emprego.

A PF ilustrou com 5 fotografias esse trecho do relatório, inclusive uma imagem de Vidigal deixando o prédio da ONG no Anhangabaú, Centro da Capital, rumo ao restaurante. Os federais fizeram foto do secretário do Ministério abraçando Jorgette.

"É bom que se diga que o encontro entre o secretário Vidigal e Jorgette foi articulado por Alessandro e Gleide", afirma a PF.

O padre Lício de Araújo Vale, diretor de Relações Institucionais da ONG, que também foi preso na Operação Pronto Emprego, é citado no relatório. "Nos diálogos interceptados também verificamos certa intimidade entre Antonio Sérgio Alves Vidigal e Lício de Araújo Vale", diz a PF.

O criminalista Pedro Iokoi, que defende Jorgette e a ONG, reagiu com ironia ao relatório da PF que contém fotografias do almoço. "É verdade que a sra. Jorgette Oliveira almoçou no dia 19 de julho com o secretário de Políticas Públicas de Emprego, sr. Sérgio Vidigal, que na ocasião estava acompanhado de seu secretário substituto, sr. Silvani Pereira. O almoço foi realizado após visita oficial do secretário ao Ceat, conforme noticiado na site da entidade e que provavelmente consta da agenda oficial do secretário."

Por meio de sua assessoria, Vidigal informou que assumiu a Secretaria de Políticas Públicas do Ministério do Trabalho em 12 de junho de 2013. "Os convênios firmados com o Ceat, objeto da investigação conduzida pela Policia Federal, denominada Pronto Emprego, não foram firmados em sua gestão", afirma a assessoria de Vidigal. "Em nenhum momento ele recomendou a aprovação e/ou prorrogação de qualquer instrumento firmado com a referida entidade."

Segundo a assessoria de Vidigal, "todos os convênios feitos no âmbito do Ministério do Trabalho requerem análise técnica e jurídica, sem o que não podem prosseguir".

Em nota oficial, a assessoria afirma. "O secretário (Vidigal) esclarece que não tem relacionamento algum com os envolvidos na operação, a não ser o estritamente formal que a função por ele exercida requer."

Padre. A PF atribui ao padre Lício de Araújo Vale papel destacado na organização. Segundo a PF, na condição de diretor de Relações Institucionais da ONG Ceat, padre Lício batia à porta das repartições do governo Federal em busca de convênios.

Com trânsito livre em autarquias e Ministérios ele fazia contatos com gestores responsáveis pela celebração de acordos para liberação de verbas destinadas a projetos de caráter social.

Padre Lício, da Diocese de São Miguel Paulista, chegou a participar de almoço em um restaurante em Brasília, no qual levou a seus interlocutores pedido para conseguir um convênio no Ministério da Previdência.

O projeto de cunho previdenciário ainda estava em fase embrionária. Não se sabe se o religioso chegou a manter contato direto com autoridades do setor.

O rastreamento da PF aponta para o patrimônio pessoal do padre, que inclui pelo menos dois imóveis adquiridos recentemente. Um apartamento avaliado em R$ 500 mil, localizado no Tatuapé, zona Leste da Capital, comprado em 2010 à vista. Um sítio no município de Toledo (MG), comprado em 2012. Interceptação telefônica pegou o religioso pedindo instalação da Sky, TV por assinatura. Ao ser indagado por um funcionário da empresa onde fica a propriedade rural, ele deu uma referência. "É do lado do sítio do Bigode."

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