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Petrobrás não é 'organização criminosa', diz ex-diretor à CPI

Ricardo Brito e Daiene Cardoso - Agência Estado

10 Junho 2014 | 11h 01

Em depoimento à comissão, Paulo Roberto da Costa nega acusações de superfaturamento em obras da refinaria Abreu e Lima e rebate críticas à estatal

Dida Sampaio/Estadão
Paulo Roberto Costa em sessão da CPI da Petrobrás

Atualizado às 23h40

Brasília - Sem ser pressionado, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa prestou depoimento nesta terça-feira, 10, na CPI da estatal no Senado e negou ser o líder da “organização criminosa” que teria atuado na empresa, conforme apontou a Polícia Federal. 

O ex-diretor rechaçou a pecha de “homem-bomba”, mas fez questão de exibir seu relacionamento multipartidário e citou a presidente Dilma Rousseff.

Costa disse que só conhecia o doleiro Alberto Youssef dentre todos os acusados da Operação Lava Jato. Mas afirmou que não participou de qualquer esquema de lavagem de dinheiro com o doleiro. “Não sei de onde inventaram essa história”, disse durante o depoimento acompanhado por, no máximo, cinco senadores da base aliada.

Costa, que passou 59 dias preso, disse que foi “massacrado” no período por acusações “sem fundamento”. 

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), afirmou que o depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás “foi satisfatório” em relação aos esclarecimentos técnicos. 

Abreu e Lima. Costa afirmou que, em fevereiro de 2005, a então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, liderou uma comitiva do governo brasileiro à Venezuela para firmar uma série de acordos comerciais e de cooperação entre os dois países. Um dos integrantes da comitiva, ele disse ter sido escolhido para representar a Petrobrás, que firmou acordos da empresa com a PDVSA, a estatal petrolífera do país vizinho. 

O ex-diretor afirmou que a estatal errou ao ter divulgado inicialmente que Abreu e Lima custaria US$ 2,5 bilhões. A estimativa atual é de que ela ficará em US$ 18,4 bilhões - seis vezes mais. “Era um número preliminar, não podia ser divulgado”, disse, ao ressalvar que não houve “má-fé” nessa avaliação. 

Ainda assim, ele disse que não houve superfaturamento, sobrepreço ou prejuízo na obra. O único impacto orçamentário, segundo Costa, ocorreu com a construção de uma segunda linha de refino no projeto para a conclusão do processo do óleo oriundo da Venezuela. 

Bom negócio. Mesmo sem ter participado de toda a transação, Costa afirmou que a compra da primeira metade da refinaria de Pasadena pela estatal em 2006 foi um “bom negócio”, mesmo com a omissão de cláusulas contratuais no resumo técnico que embasou a decisão tomada pelo Conselho de Administração da Petrobrás. 

Para o ex-diretor, a Petrobrás não deixaria de fazer o negócio mesmo se soubesse das cláusulas. Nomeado para o comitê de proprietários de Pasadena, ele disse que o colegiado não ficava acima da Petrobrás e tinha por função tomar uma decisão “soberana” das duas partes. 

Rede política. Paulo Roberto Costa disse ter chegado à cúpula da Petrobrás em 2004, após 27 anos como funcionário da estatal, por “competência técnica”. “Não entrei de diretor pela janela nem de paraquedas”, afirmou. “Realmente para mim foi muito ruim porque 35 anos de Petrobrás não se joga no lixo como jogaram”, afirmou.

Ele negou também ter atuado no financiamento de campanhas eleitorais e de ter assinado irregularmente contratos de Abreu e Lima sozinho, o que seria, segundo avaliação da PF, a fonte dos recursos desviados em favor dele e de Youssef. 

Demissão. O ex-diretor de Abastecimento da estatal negou que seu afastamento da Petrobrás tenha se dado por suspeitas. Ele afirmou que, assim que Maria das Graças Foster assumiu a presidência da empresa, houve uma mudança na diretoria da Petrobrás. Costa disse que deixou o cargo juntamente com outro diretor, Renato Duque. “Quando muda a gestão, muda a diretoria”, afirmou no depoimento. Na ocasião, conforme Costa, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou que precisava de um novo “personagem” para a diretoria.

Dinheiro. Na linha de admitir um crime considerado menor, no caso sonegação de impostos, Costa admitiu não ter declarado no Imposto de Renda US$ 180 mil apreendidos pela PF. Ele disse que o dinheiro foi resultado de uma economia feita a vida inteira. “Não sei qual é o problema de ter em casa isso”. O ex-diretor disse que os R$ 762 mil apreendidos em dinheiro vivo pela PF eram usados para fazer pagamentos da consultoria Costa Global, que abriu após ter se aposentado pela Petrobrás em 2012. / COLABOROU DÉBORA ÁLVARES