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Petrobrás demite autor de parecer que Dilma chamou de ‘falho’ e ‘incompleto’

Mariana Durão, Mariana Sallowicz, Luciana Nunes Leal e Vinicius Neder - O Estado de S. Paulo

21 Março 2014 | 23h 09

Nestor Cerveró foi responsável por documento que, segundo a presidente, não citava cláusulas que a teriam feito rejeitar compra de refinaria nos EUA; em férias, ele afirma que ‘única alternativa é o silêncio’

Rio - O Conselho de Administração da Petrobrás decidiu nesta setxa-feira, 21, demitir Nestor Cerveró, diretor financeiro BR Distribuidora. Cerveró comandava a área internacional da estatal petrolífera brasileira em 2006 e foi o responsável pelo "resumo técnico" usado por Dilma Rousseff naquele ano para apoiar a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA).

Então chefe da Casa Civil do governo Lula e no comando do Conselho de Administração da Petrobrás naquele ano, a presidente disse na terça-feira que o "resumo técnico" era "falho" e, só por isso, aprovou o negócio.

Em férias na Europa e antes de saber de sua demissão, o executivo fez um desabafo: "Do jeito que as coisas foram postas, minha única alternativa é o silêncio", afirmou Cerveró ao Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

Dilma culpou a diretoria da área internacional pelo "resumo técnico" "falho" numa nota oficial redigida ao Estado, que preparava reportagem sobre o fato de a petista ter aprovado a compra de 50% da refinaria, considerada obsoleta e que se tornou um problema caro para a Petrobrás, que desembolsou mais de US$ 1 bilhão.

A presidente afirmou na nota que o "resumo técnico" não trazia algumas cláusulas do contrato, como a que obrigava uma das partes da sociedade a comprar a outra parte em caso de desentendimentos. A sócia da Petrobrás era a empresa belga Astra Oil.

A saída de Cerveró da diretoria financeira da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobrás, era considerada inevitável já na noite de quinta-feira entre assessores de Dilma no Planalto. A maior preocupação dos assessores é tirar a presidente do centro da crise.

A compra da refinaria é investigada pelo Ministério Público Federal, pela Polícia Federal e pelo Tribunal de Contas da União por causa de suspeitas de superfaturamento e evasão de divisas. Os números discrepantes envolvendo o negócio foram revelados em reportagem de Sabrina Valle, em julho de 2012.

Reunião. Nesta sexta, o conselho de administração da Petrobrás passou cerca de seis horas reunido. O encontro foi focado no caso Pasadena. Problemas atuais da empresa, como capacidade de investimento, alavancagem e endividamento ficaram em segundo plano. Participaram da reunião a presidente da estatal, Graça Foster, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, de São Paulo, e, outras autoridades, como a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, por videoconferência a partir de Brasília.

Poucas horas após a reunião, a subsidiária da estatal, a Petrobrás Distribuidora, anunciou em nota "a destituição do diretor financeiro da companhia, Nestor Cuñat Cerveró". Com a saída do executivo, o presidente da subsidiária, José Lima de Andrade Neto, irá acumular interinamente a pasta financeira.

Ao lado de Cerveró, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, preso na quinta no Rio pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, participou da elaboração do negócio que garantia vantagens à empresa belga Astra Oil em detrimento da Petrobrás.

À distância. Antes da demissão desta sexta, segundo fontes da Petrobrás, o plano de Cerveró era acompanhar os primeiros desdobramentos do caso à distância. As férias, programadas antes da reportagem do Estado ser publicada na quarta-feira, previam ainda mais duas semanas em países da Europa.

Funcionário da Petrobrás desde 1975 e com formação em engenharia química, Cerveró assumiu o posto de diretor da área internacional da companhia petrolífera no início de 2003, primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Ele foi indicado pelo senador Delcídio Amaral (PT), dentro da cota petista de cargos na estatal. Também recebeu a bênção de José Dirceu, que chefiava a Casa Civil.

Em 2008, em meio a uma disputa política entre PT e PMDB na Petrobrás, Delcídio perdeu a queda de braço e Cerveró teve de deixar o cargo, que foi depois ocupado por Jorge Luiz Zelada, indicação do PMDB. Nessa reorganização de cadeiras, Cerveró foi então deslocado para ocupar a diretoria financeira da BR Distribuidora, responsável pela rede de postos de gasolina no Brasil.

Na quarta-feira, Delcídio negou ser o responsável pela indicação do ex-diretor. "Em 2003 fui consultado pelo governo sobre o nome de Cerveró para a diretoria e não vi nenhum óbice, era um funcionário de carreira da empresa", afirmou o senador petista, que também foi diretor da Petrobrás. "No que se refere à tramitação de projetos, acho pouco provável que algum processo chegue ao conselho sem estar devidamente instruído para liberação dos diretores e conselheiros".

O fato de Dilma ter apontado falhas no "resumo técnico" apresentado por Cerveró é contestado nos bastidores por diretores da Petrobrás. As cláusulas omitidas nesses documento, dizem, são comuns de deveriam ser conhecidas por Dilma, independentemente de estar ou não no "resumo técnico".