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Perícia apura se avião de  Eduardo Campos bateu antes de cair

Bruno Ribeiro, Diego Zanchetta e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2014 | 03h 00

Uma maquete virtual está sendo montada para verificar a trajetória exata do Cessna; conteúdo da caixa-preta é analisado em Brasília

BRASÍLIA - O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) pretende fazer a reconstituição da queda da aeronave onde estavam o ex-governador Eduardo Campos e outras seis pessoas. O objetivo é identificar os pontos exatos onde o jato Cessna tocou antes de cair no meio do Boqueirão, área residencial de Santos, no litoral paulista. Uma das frentes da investigação tenta identificar se houve colisão antes da queda. Testemunhas e pilotos da Base Aérea do Guarujá relatam ter visto fogo nas turbinas do jato momentos antes da queda. 

Os peritos da Aeronáutica pretendem ter, dentro de 10 dias e com base nas marcas deixadas pela aeronave nas casas e nos prédios atingidos, um mapa com a trajetória do Cessna. Nesta quinta-feira, 14, os peritos do Cenipa e da Polícia Federal utilizavam equipamentos para tentar localizar pequenos fragmentos que ajudem a reconstituir o trajeto. Ao lado de um dos sobrados atingidos, dois peritos da PF tentavam fazer com scanner uma “maquete virtual” com os pontos exatos tocados pelo jato, enquanto peritos tiraram fotos e filmavam o local.

José Patrício/Estadão
Reconstituição do percurso e áudio da cabine mostrarão causas da queda

“Pela forma como a aeronave caiu, de bico, na vertical, é um indício de que pode ter ocorrido algum problema ainda no ar, pois ela não estava ‘plainando’ no momento da queda. Como algumas pessoas relataram que a turbina também já estava pegando fogo no ar, e ela caiu na vertical, é grande a possibilidade de algum problema mecânico ou pane ter ocorrido no jato antes da queda”, afirmou ao Estado um perito do Cenipa que estava no local do acidente durante a madrugada. “A reconstituição do percurso da aeronave e o áudio da cabine vão nos mostrar as causas do acidente”, acrescentou o perito.

Nesta quinta-feira, 14, também, agentes da Polícia Federal percorreram as ruas ao redor do ponto de impacto - a Alexandre Herculano e a Vahia de Abreu - em busca de câmeras de vigilância que pudessem ter gravado imagens do momento da queda. A PF não confirmou se a busca deu resultados positivos.

As partes da aeronave que interessam para os investigadores já estavam sendo levadas nesta quinta para Brasília. Partes do motor do avião foram para uma oficina em São Paulo. 

Caixa-preta. A caixa-preta do jato começou a ser analisada pelo Cenipa na manhã desta quinta. O equipamento tem capacidade para gravar duas horas de conversa entre as pessoas que estavam na cabine do avião e também as realizadas pelos pilotos com as torres de comando e controle. 

Caso os diálogos tenham sido preservados no equipamento, será possível reproduzir o trajeto do voo, iniciado por volta das 9h21, quando decolou do Aeroporto Santos Dumont, no Rio, até as 9h57, horário do acidente. Mas não há garantia de que a toda ou parte da conversação esteja preservada por causa dos danos no gravador de voz. 

Se o som estiver preservado, a comissão deve se debruçar nos primeiros 40 a 50 minutos de gravação, tempo de voo entre as duas cidades.

A Aeronáutica distribuiu um vídeo informando os procedimentos que estão sendo adotados pelo Cenipa com a análise do gravador de voz. O vídeo, além de apresentar o quanto o equipamento está danificado, mostrava a cápsula de segurança que tem a função de proteger a memória, onde estão os arquivos de áudio.

Os peritos do Cenipa vão analisar as condições do circuito em um microscópio que aumenta o objeto em até 240 vezes. De acordo com a Aeronáutica, concluída a avaliação sobre o estado de conservação das memórias do gravador de voz, o conjunto de placas será remontado para ser lido por um software específico do fabricante. “Caso não seja possível ouvir com qualidade, o áudio pode ser tratado por outro sistema”, diz a FAB.

Além do áudio com os diálogos da cabine, o Cenipa vai examinar os destroços do avião no Laboratório de Leitura e Análise de Dados de Gravadores de Voo (Labdata), do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos. Partes poderão ser checadas e testadas em laboratórios de análise em São José dos Campos (SP) e até nos Estados Unidos, na fábrica do equipamento.

Torre. A Aeronáutica vai chamar para ser ouvida pela comissão de investigação a pessoa que estava na Base Aérea de Santos e conversou com o piloto. O Cenipa também vai verificar se os pilotos cumpriam a carga horária de trabalho estabelecida pela legislação. Um dos pilotos queixou-se de cansaço nas redes sociais dias antes do acidente.

Jato teve problema em 16 de junho

O jato Cessna 560 XL usado por Eduardo Campos apresentou um problema no sistema de ignição em 16 de junho, no Paraná. Uma caixa excitadora de corrente elétrica de alta voltagem chegou ao fim útil e, como não havia uma caixa sobressalente, a tripulação teve de cancelar a decolagem.

De acordo com pilotos ouvidos pelo Estado, essa caixa serve exclusivamente para dar partida no motor. Esse tipo de pane não compromete a aeronave e não teria a ver com o acidente.