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Pausa para simulação

Dora Kramer

- Atualizado:06 Janeiro 2016 | 03h 00

Aproveitando o relativo intervalo na crise geral em decorrência do período de recesso no Legislativo e no Judiciário, o governo e o PT atuam neste início de ano para dar a impressão ao País de que iniciam – cada qual ao seu modo – uma fase nova em folha. Como se pretendessem voltar atrás na marcação do tempo, adaptando o hipotético relógio ao calendário eleitoral.

As eleições municipais vêm aí. O PT entra na disputa em desvantagem. Não tem discurso, carrega um desgaste imenso, está irremediavelmente atrelado a um governo impopular, avalia que poderá ter um desempenho eleitoral desastroso e precisa de alguma maneira tentar reduzir o previsto prejuízo.

A julgar pelas manifestações recentes do partido, seus dirigentes escolheram o caminho da retomada das origens. Daí a defesa, junto ao governo, da chamada “guinada à esquerda”, que incluiria a divulgação de uma Carta aos Brasileiros” numa concepção oposta à que motivou o texto de 2002, no qual o PT reafirmava compromisso com os fundamentos da estabilidade econômica. 

A proposta agora rejeita aqueles pilares ao negar medidas de combate duro à inflação, contenção e cortes de gastos, defendendo uma política econômica que dê “resposta rápida” à crise e propicie a retomada do crescimento. Em outras palavras, o PT quer que o governo retome o discurso ilusionista da campanha de 2014. 

A presidente Dilma Rousseff está, portanto, diante de um problema. Não atenderá aos apelos do partido, mas também não abrirá mão de amenizar a realidade, conforme teremos oportunidade de observar na linguagem a ser adotada quando do anúncio do novo pacote de medidas econômicas, cujo objetivo será o de incutir na população (leia-se, eleitorado) o espírito da renovação da esperança.

Pura simulação com a finalidade de imprimir melhoria às condições subjetivas do ambiente. Nessa linha, no campo político ministros se valem do período de recesso para ocupar espaços no noticiário com a pregação do otimismo voluntarista. 

Nota-se isso quando assentam a convicção de que a hipótese do impeachment está praticamente enterrada, combinada com um ensaio (leve, livre, solto e sem consequência) de crítica em relação aos procedimentos do PT. Na prática significa que o discurso muda, mas tudo permanece como está. 

Ora, a crise... Enquanto o Rio de Janeiro mergulha em grave crise econômica com situação de especial descalabro na Saúde, a bancada do Estado na Câmara dedica-se ao exercício do engalfinho por causa da escolha do líder do PMDB na volta do recesso, em fevereiro.

Nessa briga, de importância zero para a população, os deputados contam com a colaboração do governador Luiz Fernando Pezão e do prefeito Eduardo Paes como se ambos não tivessem mais o que fazer. Na mesma toada atua o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, também deputado pelo Rio. 

Prefeito e governador nomeiam e exoneram secretários estaduais e municipais para atender à conveniência do atual líder e candidato à recondução, Leonardo Picciani, a fim de lhe garantir votos necessários. Cunha, por sua vez, recorre a manobras no intuito de subtrair apoios ao adversário. 

Com uma representação dessa qualidade, cariocas e fluminenses podem se considerar cidadãos entregues nas mãos do imponderável. 

Validade vencida. O governo brasileiro apontou as agressões da Venezuela à democracia com pelo menos dez anos de atraso. Neste aspecto, perdeu a liderança para o argentino Mauricio Macri.

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