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Parceria, paz e saúde

A economia está um desastre completo e o Aedes é uma tragédia real, mas a presidente Dilma Rousseff tenta fazer desse limão uma limonada e essa limonada pode azedar... Na terça-feira, enfrentou as vaias no Congresso para defender uma “parceria” para a retomada do crescimento, mas as notícias que chegam de lá continuam ruins. Na quarta, enfrentou o panelaço e conclamou a sociedade a formar “um grande exército de paz e de saúde” contra o Aedes aegypti, mas a situação só piora e ameaça até a Olimpíada no Rio. 

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Eliane Cantanhêde

05 Fevereiro 2016 | 03h00

Foi a primeira vez em que Dilma se dignou a entregar pessoalmente a mensagem presidencial ao Congresso, já no sexto ano de mandato, e foi também a primeira vez que ela voltou à TV depois de quase um ano distante dos pronunciamentos institucionais. E voltou vestida de branco – a cor da paz. No primeiro gesto, argumentou com “a excepcionalidade do momento” econômico. No outro, pegou carona na dramaticidade da infestação do mosquito.

Dilma, portanto, saiu da toca e do imobilismo e foi enfrentar os adversários, cara a cara, para o que der o vier. O resultado, porém, é incerto e não sabido. Depende da economia, que não dá sinais de melhora; do grau de beligerância da Câmara, que não arrefece; e da força do mosquito, que é implacável e poderoso. 

Sem ter o que mostrar e o que defender do próprio mandato em 2015, a presidente esqueceu o desastre da economia e brindou os deputados e senadores com a ladainha dos números dos seus programas pontuais e periféricos, como o Minha Casa Minha Vida. Pois não é que, apenas dois dias depois, a manchete do Estado nos informou que nem isso resiste à crise? 

Apesar do oba-oba no Congresso e dos desmentidos do Ministério das Cidades, o governo está reduzindo em 1/3 a meta do Minha Casa: a candidata Dilma prometia na campanha de 2014 que seriam 3 milhões de novas unidades até 2018, mas a presidente Dilma admite agora que serão 2 milhões, por causa da crise que ela simplesmente ignorou no plenário do Congresso.

Mais: no dia seguinte à ida ao Congresso, Dilma perdeu na primeira votação do ano na Câmara, que reduziu as alíquotas que o governo pretendia para tributos sobre ganho de capital. E, no segundo dia depois dos tapetes vermelhos, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deu aval para a CPI do Carf (o tribunal das causas tributárias). Aliás, logo depois da notícia de que a Polícia Federal apura se o ex-presidente Lula se envolveu em venda de medidas provisórias para favorecer o setor automotivo. Ou seja: as primeiras reações à ida da presidente ao Congresso têm ido de mal a pior.

E quanto ao pronunciamento de Dilma em cadeia de rádio e TV? O histórico já é péssimo. Num deles, ela bateu no peito vangloriando-se da queda dos juros – e as taxas simplesmente dispararam. Noutro, apresentou-se como corajosa, forte e justa por ter baixado na marra as tarifas de energia – e as contas de luz de casas e empresas dispararam.

No desta semana, a presidente foi logo pedindo licença para entrar na casa das pessoas, não para falar de política ou economia, mas para pedir o engajamento dos brasileiros e brasileiras contra o Aedes aegypti e o zika vírus. Encerrou o pronunciamento com o anúncio de uma mobilização nacional contra o mosquito no dia 13, com 220 mil militares. Ficou a dúvida: será uma manifestação contra o Aedes ou a favor de Dilma?

Além disso, enquanto a presidente brilhava na TV, já se discutia, daqui e dali, algo de enorme gravidade: e se a Olimpíada for cancelada por causa do Aedes, do zika vírus, da microcefalia, da dengue, da chikungunya e da barafunda geral? O pronunciamento, que num primeiro momento contou a favor da Dilma, pode ser mais um tiro n’água, como aconteceu com o da conta de luz e o dos juros. Dilma tem de rezar para que não. Nós também.

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