Para militares, jagunços não eram revolucionários e sim bandidos

Cobrado pelo governo federal, general Setembrino chega de surpresa na região para reprimir rebeldes

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 18h00

Depois de dois anos de expedições frustradas, o Ministério da Guerra nomeou Fernando Setembrino de Carvalho, general recém-promovido pelo Exército, para liquidar, em setembro de 1914, o movimento dos caboclos do oeste catarinense. O objetivo era acabar com os embates com as forças policiais do Paraná e Santa Catarina, que dificultavam a atuação da companhia Brazil Railway, concessionária da Ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul.

 

 

Setembrino era interventor federal no Ceará quando foi chamado para reprimir os revoltosos do Contestado. No Ceará, ele ocupou o cargo do governador Franco Rabelo que duelava contra o governo federal e o grupo de Padre Cícero Romão Batista e do coronel Floro Bartolomeu. Para Setembrino, os "jagunços" de Cícero e Bartolomeu não eram revolucionários ou políticos, mas apenas "bandidos". E foi essa visão que o militar levou para o Sul do Brasil.

 

O general chegou de surpresa à cidade de Rio Negro, no Paraná, em dezembro, para organizar a última e decisiva campanha. De Rio Negro, ele foi para Canoinhas, onde montou seu quartel. Estima-se que ele dispunha, naquele momento, de sete mil homens do para reprimir os rebeldes. Presente na região há dois anos, o Exército não contava ainda com mapas da topografia do terreno.

 

A imprensa de Santa Catarina cobrava uma posição dura do governo federal contra os caboclos. Artigo do jornal "Tribuna do Povo", de Tijuca, edição de 24 de agosto de 1914, guardado na Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, critica a falta de medidas enérgicas. "Parece que o governo federal deseja que a revolução dos fanáticos ou bandidos, de Taquarussu, tome o incremento necessário para implantar a desordem em todo o Estado. Pois, até hoje não foram dadas as providências necessárias, para que vejamos voltar a paz sem ser empregado o assassinato injustamente", destaca o texto analisado pelo Estado. "O movimento revoltoso cada vez mais conta com mais adeptos, infelicitando a rica região serrana, que tento tem sofrrido."

 

Nos primeiros dias na área, Setembrino restabeleceu o funcionamento da estrada de ferro, fechada após sucessivos ataques dos rebeldes. Em parceria com a Brazil Railway, ele montou um esquema de fiscalização para bloquear o transporte de alimentos e armas para os caboclos. Antes de fechar um plano de ataque aos rebeldes, Setembrino deu ordens para a população civil sertaneja deixar suas terras e casas na área do conflito. A ideia era limpar o terreno e facilitar o reconhecimento dos rebeldes. Quem permanecesse nas terras seria considerado "inimigo" pelo Exército. Era 26 de setembro de 1914. Naquele mesmo dia, Curitibanos, um vilarejo aberto no século 18 por tropeiros que faziam o caminho de Pelotas, no Rio Grande do Sul, à feira de bois e mulas de Sorocaba, em São Paulo, era atacado por rebeldes. A Intendência Municipal, a cadeia e duas dezenas de casas foram incendiadas. O intendente, coronel Francisco Ferreira Albuquerque, fugiu antes da chegada dos revoltosos.

 

Após o ataque, assumiu o controle do município o coronel Marcos Gonçalves Farias, o mesmo que escapou de ser degolado pelo líder rebelde Gumercindo Saraiva, chefe dos "maragatos" na Revolução Federalista. Em 1894, quando passava por Curitibanos, Gumercindo cobrou de Farias a promessa de lhe fornecer 200 jagunços para combater os "pica-paus", governistas. A promessa não foi cumprida. Farias lhe entregou apenas dois vaqueanos para guiá-lo pelos caminhos da região. Um dos guias, afilhado de Farias, ouviu Gumercindo planejar a morte do padrinho. "Padrinho, corre porque Gumercindo vai te matar." O registro do episódio, ainda inédito, foi repassado pelo pesquisador Aldair Goetten de Moraes.

 

Busca. Uma testemunha da invasão de Curitibanos estaria morando em Ponte Alta, distrito a 30 quilômetros da sede do município. Na porteira de uma fazenda do lugar, um trabalhador atende a equipe de reportagem: "Dona Guilhermina morreu". Nascida em 1906, Guilhermina Soares morreu em novembro passado. Ela e o irmão, Vitor Soares, nascido em 1908, também falecido, perderam os pais o ataque ao reduto de Taquaruçu. Eles foram criados em fazendas de Curitibanos.

 

Alcoolismo. O Exército sofria todo tipo de problemas em suas tropas. O coronel Onofre Ribeiro relatou, em telegrama a superiores, a 6 de dezembro de 1914, um caso de alcoolismo envolvendo um oficial que atuava na área de Canoinhas. "O capitão Maranhão deu novamente parte (...) sendo julgado incapaz para o serviço exercido, por sofrer de alcoolismo crônico, com depressão mental e cirrose hepática consecutivas", escreveu.

 

Em telegrama de 9 de janeiro de 1915, de Iracema, cidade próxima a Rio Negro, o capitão Grossi relata ao general Setembrino de Carvalho os esforços para a tomada dos primeiros redutos na operação final contra os caboclos. "Comunicamos VEx. que tendo sido feito esforços para a rendição de Tavares, determinara o senhor general que o recduto fosse atacado no dia 8. Quando na noite de 7, as tropas, realizando o plano de ataque, executaram marcha de approximação do reducto, fanáticos em massa, desarmados, se apresentaram às forças. Em Tapanduvas, Iracema e Moena (linhas da antiga colônia Lucena) apresentaram-se cerca de setecentos fanáticos, entre mulheres, homens e crianças. O chefe Tavares com 6 a 10 homens fugiu em direção ignorada." O capitão afirma que não houve derramamento de sangue: "Congratulo-me com VEx. por esse triumpho em que não se sacrificaram vidas de camaradas nem de infelizes patrícios de raça embrutecida por séculos de ignorância."

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