Para Maia, Janot precisa ter uma reação 'dura' com delatores

Presidente da República em exercício cobra revisão de benefícios dados a executivos da JBS

Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 12h13

BRASÍLIA - O presidente da República em exercício, Rodrigo Maia, disse na manhã desta terça-feira, 5, que a Procuradoria-Geral da República (PGR) precisa ter uma reação “dura” com possíveis ilícitos no acordo de delação firmado com executivos do Grupo J&F, defendeu a continuidade das investigações em curso, disse que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, agiu corretamente e afirmou não saber se as revelações feitas - que podem levar ao cancelamento da delação que implica o presidente Michel Temer - podem enfraquecer uma eventual segunda denúncia.

“É importante que a sociedade, ao mesmo tempo em que apoia as investigações contra o presidente da República, ela também quer ver uma investigação mais firme contra os donos da JBS. É isso que me pareceu ontem que o doutor Janot está fazendo”, disse Maia, ao chegar em evento no Salão Nobre da Câmara dos Deputados.

Maia disse ainda que as revelações feitas por Janot, de fato, são “surpreendentes, sem dúvida nenhuma” e cobrou revisão dos benefícios dados aos executivos da JBS e eventual punição ao ex-procurador Marcelo Miller, suspeito de ter orientado indevidamente os executivos quando ainda atuava na Procuradoria.

“O que a sociedade vem reclamando de forma correta é por que os benefícios aos donos da JBS foram benefícios que pareceram a todos muitos generosos”, disse. “Acho que essa gravação pode reorganizar essa relação, pode reorganizar os benefícios que foram aceitos pela PGR e acho que é isso que a PGR está avançando”, completou ponderando que o órgão passou a ter informações que não tinha. “Não podemos culpar ninguém por informações que não existiam naquele momento e, se de fato o ex-procurador participou ainda como procurador de conversas para organizar a delação, as gravações, junto com o dono da JBS, é importante que o MP avance de forma firme.”

A determinação de Janot para a abertura de investigação que poderá desembocar no cancelamento do acordo de delação da JBS ocorreu em razão do que o procurador-geral classificou de "indícios de crimes gravíssimos", envolvendo o seu ex-auxiliar Marcelo Miller. “Tinha uma grande suspeita sob o procurador que parece ser verdadeira, mas eu não culpo o doutor Janot, porque o doutor Janot não é obrigado a saber”, ponderou Maia.

Apesar disso, Maia afirmou que a situação de Miller gera dúvidas não só em relação à delação da JBS, mas também a outras empresas e escritórios de advocacia que o ex-procurador criou. Segundo ele, no entanto, Janot deu na segunda-feira, 4, a primeira resposta, “rápida”, pedindo o prazo rápido de cinco dias para que se investigue de forma urgente. “Acho que todo mundo espera que, parecido com o que aconteceu com outros episódios, tanto Joesley quanto o procurador tenham da Procuradoria, e foi isso o que o doutor Janot falou ontem, a mesma ação que teve em outros casos”, disse.

Maia evitou comentar se houve um açodamento por parte da PGR em fechar rapidamente a delação com os executivos da JBS e afirmou que o instituto da delação tem a sua importância. “Agora é fácil avaliar. De fato a JBS criou relações muito profundas em muitos poderes. Então, certamente tem (PGR) provas”, afirmou. “Não gosto de ficar olhando na situação de hoje, que mostra problemas, ficar fazendo a crítica do passado. O que é importante é que, já que apareceu, entregue de forma espontânea, pelos próprios delatores, áudios que comprometem os próprios delatores e um (ex) procurador (Marcelo Miller), que a Procuradoria tenha uma relação muito dura. Isso que é importante. Não vou ficar olhando para trás, se a delação foi rápida ou não foi rápida”, destacou. Ao ser questionado sobre o que se referia ao pedir uma reação dura da PGR, Maia disse não saber. “Eu não sou procurador, acho que o procurador tem que tomar as decisões”, afirmou. O presidente em exercício reforçou, entretanto, que a sociedade reclamou desde o inicio da delação da JBS. “Não foi a JBS ter tratado do presidente Michel Temer, de parlamentares, de governadores, foi o benefício que a JBS recebeu completamente diferente dos outros benefícios. Você via nas pesquisas que havia um apoio à delação em relação a tudo que se falou em relação ao Poder Executivo e Legislativo e que tem que se investigado mesmo e isso é da democracia”, completou.

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