Para governistas, adversário já não tem mais o que oferecer

Aliados de Dilma avaliamque desgaste de Cunhao impede de utilizarpedido de impeachmentpara negociar sobrevida

Erich Decat, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2015 | 17h55

BRASÍLIA - Diante dos avanços das investigações contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no âmbito da Operação Lava Jato, interlocutores da presidente Dilma Rousseff consideram que não há motivos para uma aproximação com o peemedebista com o intuito de ajudá-lo a se manter no cargo.

A cautela do governo vai numa linha contrária à ensaiada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer um acordo com o deputado, como forma de assegurar que não fosse iniciado um possível processo de impeachment contra a presidente.

O entendimento da cúpula do governo e até de setores do PMDB é de que Cunha, adversário declarado do Planalto, não tem mais o que oferecer como contrapartida e, em razão disso, ele deve enfrentar sozinho os desdobramentos no Judiciário e no Conselho de Ética da Câmara. A ação no colegiado foi apresentada por PSOL e Rede, e contou com o apoio de 34 dos 62 integrantes da bancada do PT.

Parte da confiança de assessores mais próximos de Dilma está baseada em decisões tomadas nos últimos dias pelos ministros Rosa Weber e Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. Os ministros barraram o rito previamente definido por Cunha e aliados para analisar pedidos de impeachment. O trecho do voto de Zavascki, evocado nos bastidores do governo, é o que afirma não poder haver qualquer dúvida de ordem jurídica em relação ao tema.

“Em processo de tamanha magnitude institucional, que põe a juízo o mais elevado cargo do Estado e do governo da Nação, é pressuposto elementar a observância do devido processo legal, formado e desenvolvido à base de um procedimento cuja validade esteja fora de qualquer dúvida de ordem jurídica. No caso, os fundamentos deduzidos na inicial e os documentos que os acompanham deixam transparecer acentuados questionamentos sobre o inusitado modo de formatação do referido procedimento, o que, por si só, justifica um pronunciamento do Supremo Tribunal Federal a respeito”, ressalta o ministro. Governistas consideram que o assunto pode até andar no campo político, mas permanecerá travado no Judiciário.

Família. A perda do controle da condução do impeachment e o futuro político de Cunha também têm dividido lideranças do PMDB. Há um entendimento de que, ao ter a mulher, Cláudia Cruz, e sua filha, Danielle Cunha, inseridas pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no centro das investigações, o peemedebista acabará “envergando” e deixará “mais cedo ou mais tarde” o comando da Câmara, como uma forma de sair dos holofotes.

Após pedido de Janot, o ministro Teori Zavascki autorizou na noite de quinta-feira a abertura de um novo inquérito para investigar supostas contas do deputado na Suíça irrigadas com recursos desviados da Petrobrás. Segundo documentos enviados pelo Ministério Público da Suíça à PGR, a conta aberta no país europeu em nome de Claudia foi usada para pagar despesas pessoais como academia de tênis na Flórida e cursos na Espanha e no Reino Unido.

Entre 4 de agosto de 2011 e 15 de fevereiro de 2012, foram transferidos US$ 119.795 da conta de Cláudia à universidade espanhola Esade. A filha de Cunha, que é apontada como dependente em uma das contas, fez MBA na instituição no mesmo período dos pagamentos. Cunha tem negado ter contas no exterior. Segundo o Ministério Público suíço, as contas atribuías a ele e a Cláudia receberam ao todo R$ 23 milhões.

Outro ponto de preocupação de lideranças do PMDB é que uma possível queda de Cunha também acarrete a perda do comando da Câmara, uma vez que deixaria o processo de sucessão em aberto para eventuais candidaturas de outros partidos.

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