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Para classe média de Goiânia, palavra de ordem é mudança

Lourival Sant'Anna - O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h 04

Revoltados com corrupção, gastos da Copa e serviços públicos ruins, moradores veem governos como fardo e transferem culpa a Dilma

Goiânia - A combinação de inflação e impostos altos abala o poder de compra da classe C em Goiânia. A vinculação entre corrupção, Copa do Mundo e serviços públicos ruins acentua a percepção do governo como um fardo, que não só não ajuda como atrapalha. Na cidade administrada pelo PT e no Estado governado pelo PSDB, mazelas que não são da alçada federal, como transporte coletivo (municipal) e segurança (estadual), acabam indo para a conta da presidente Dilma Rousseff e de seu partido - como, de resto, acontece também em outros lugares.

O Ibope encontrou em Brasília, Goiânia e Aparecida de Goiânia - cidade-dormitório conurbada com a capital do Estado - grande concentração de eleitores que querem mudança sem Dilma Rousseff. Foram exclusivamente esses os eleitores ouvidos pelo Estado em Goiânia.

“Sou muito revoltada com essa Copa”, desabafa Josy Menezes, de 23 anos, secretária em um escritório de advocacia. “Lógico que a Dilma não está tão ligada a isso, mas é um reflexo do que o Brasil quer oferecer para as pessoas: estádios e mais estádios, e nada mais além disso”.

Lourival Sant
“Em todas as eleições, votei no PT, mas, ultimamente, ando muito descontente com o meio político, porque é muita roubalheira”, José Cirineu de Oliveira, 42, dono de barraca de lanches

“Creio que já deu para o PT, que já está no poder há um certo tempo”, avalia Josy, a caminho para o trabalho, ao meio-dia. “A Dilma continuou algumas coisas que o Lula começou, mas em outras houve mudanças e não estou satisfeita com o governo dela. Estou cansada dessa corrupção, desse modo de governar. Quero mudança de todas as formas.” Eleitora de Lula, ela já não votou em Dilma e ainda não tem um candidato para este ano. “O Lula teve um governo digamos que até bacana, mas meu problema é com o PT”, diz a secretária. “Além da corrupção, inúmeras coisas me incomodam. Poderia te citar um livro inteiro: saúde, nossa... Aqui em Goiânia o transporte é muito complicado. Creio que em todos os Estados existem esses problemas.”

Sem pulso. Cleyde Borges, de 38 anos, vendedora em uma loja de roupas, segue linha parecida: “O governo não tem pulso. Só construiu estádio, não tem lei. Uma bandidagem danada”. Na fila de uma casa lotérica, Cleyde continua: “Não tem condição o País como está. Sou anti-Dilma, anti-PT. Acho péssima nossa governante. Votei não foi na Dilma, mas não lembro. Neste ano, estou indecisa ainda.”

“Fez esse bando de estádio para uma Copa que vai durar 30 dias”, critica Lívia Fernandes, de 35 anos, dona de lanchonete. “Um investimento enorme que não vai ter muito retorno.” Para ela, o governo de Dilma se resume em uma frase: “Dê o dinheiro e eu não faço coisa nenhuma”. “Educação, transporte, segurança, tudo continua ruim”, constata Lívia. “Não melhorou nada.” Ela votou em José Serra (PSDB)na eleição passada. “Neste ano, ainda estou pensando. Vou analisar todos os candidatos. Mas é aquela história: sai de um, cai no outro, muda muito pouco. Vamos ver quem vai aparecer e que propostas terão.”

Uma cliente chega e pergunta se a lanchonete serve almoço. “Depois da Copa, vamos ver se vamos servir almoço.” O repórter pergunta qual a relação. “Os preços sobem muito rápido”, explica Lívia, que abriu a lanchonete há 8 meses em sociedade com a mãe.

“Não votei na Dilma na primeira eleição nem vou votar na segunda”, diz o taxista Alfredo Antônio da Silva, de 46 anos. “Porque não está dando certo. O pessoal reclama de criminalidade e simplesmente tapam o ouvido. O que mais está incomodando a população é isso e a saúde e ninguém faz nada.” Silva ainda não sabe quais serão os candidatos neste ano. “Provavelmente não vou votar em ninguém, por falta de acreditar nos outros”, diz. “Ouvi falar que tem um general que quer se candidatar. Se se candidatar, meu voto é dele. Essa é a única certeza que tenho. Tem medo de ditadura quem faz coisa errada.”

Roubalheira. Numa manhã ensolarada, ele conversava com José Cirineu de Oliveira, de 42 anos, dono de uma barraca de lanches no Setor Marista, bairro de classe média alta. “Em todas as eleições, votei no PT, mas ultimamente ando muito descontente com o meio político, porque é muita roubalheira”, afirma Oliveira. “Todos os presidenciáveis dizem que não sabiam. Não somos bobos para acreditar nisso. Com certeza indiretamente tem a participação ou a conivência deles.” Marina Silva representa a renovação para ele. “Se for candidata, vou votar nela.”

A algumas quadras dali, Wesley Santos, de 23 anos, motorista de bufê de festas e marido de uma cozinheira, aguardava no pequeno caminhão da firma. “A Dilma eu acho que ela conseguiu foi afundar um pouquinho mais o nosso País”, diz ele. “O que já estava mais ou menos organizado ela conseguiu desorganizar de volta. Em todos os sentidos. A inflação subiu muito. Tudo caro demais. O salário não sobe de acordo com a inflação.” Ele votou nela “achando que estava votando no Lula para dar continuidade no serviço dele”. “Não deu certo”, dá de ombros. “Não sei em quem vou votar agora.”

“Esse governo do PT está uma bagunça em geral, tanto no Estado de Goiás quanto no País”, condena o mecânico Márcio Silveres, de 42 anos. “Ela não está sabendo administrar. Perdeu o controle totalmente. Em todos os sentidos. A inflação está muito alta, os juros. Ela prometeu baixar o imposto, fez foi aumentar.” Na oficina vazia no meio da manhã de uma segunda-feira, Silveres se queixa: “Ainda mais nessa área nossa aqui, está difícil demais. A clientela diminuiu uns 30% durante o governo dela.” Ele votou nos candidatos do PSDB nas eleições anteriores. “Estou pensando seriamente no Aécio (Neves) para ter mudança, porque do jeito que está não pode ficar.”

“Se a Dilma precisar de meio voto meu, não vai se eleger”, assegura Sirlene Borges, de 33 anos, vendedora em uma loja de bijuterias e casada com um mecânico. “Depois que ela entrou no governo, o trem ficou pior do que estava. Bolsa Família vai resolver alguma coisa? O povo precisa de emprego, de saúde.” Sua colega, Ricardina Santos, de 26 anos, cujo marido é motoboy, lembra: “A gente trabalha cinco meses do ano para pagar impostos”.

Sirlene concorda. Ela votou em José Serra (PSDB) na última eleição, mas não sabe em quem votará neste ano. “Dilma não pode continuar”, enfatiza. “A inflação está demais. Não adianta subir o salário se os preços sobem mais.”

Racionamento. A indignação de Sirlene se estende a um tema que envolve um governo do PSDB: “São Paulo, um Estado com mais de 500 anos, com racionamento de água. Pelo amor de Deus”, exclama a vendedora. “O governo não faz nada. Se gastar tanto de água vai pagar multa. Não existe isso. Se tem hóspedes em casa, como vai provar que gastou mais porque não estava só a sua família?”

Suzy Santos tem apenas 18 anos, participa neste ano de sua primeira eleição, mas já está profundamente desiludida. “Meu voto é nulo por uma série de coisas”, diz Suzy, que terminou o ensino médio e trabalha em uma loja de colchões. “Eu me interesso e me desinteresso por política. Muita roubalheira. A gente vê melhoria, mas é malfeita. Poderiam fazer muito mais. A gente só vê coisa ruim no jornal e, se for olhar mais a fundo, vai se chatear mais”, considera Suzy. “É melhor não ter participação nenhuma nisso, porque você diz: ‘Contribuí para esse cara se eleger e olha o que ele está fazendo’.”

Seu colega Marcos Sérgio Cavalheiro, de 26 anos, que estuda Contabilidade, diz que vai votar, mas nenhum candidato ainda lhe chamou a atenção. “A princípio, o governo da Dilma foi bem diferenciado, mas criou muitas expectativas e não colocou em prática.” Seu pai, de 60 anos, foi atropelado e “sofreu bastante” no SUS, conta Cavalheiro. Quebrou uma perna e a clavícula e, para passar por cirurgia no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), teve de esperar por quase uma semana.

Entre os que não vão votar em Dilma, seu governo e seu partido são cobrados tanto por adotar quanto por não adotar posições que costumam ser rotuladas pelos que os apoiam de socialmente “progressistas”.

Beatriz de Almeida Prado, de 21 anos, formada em Educação Física e professora em uma academia de ginástica, vai votar para presidente pela primeira vez. “Tendo a votar na Marina Silva, mas ainda não defini, não tive tempo de analisar as propostas dos candidatos”, diz. Na última eleição, ela ia votar em Marina, mas não fez o título de eleitor. “Além de ter uma política voltada para a sustentabilidade, que é bacana, ela é vice do Eduardo Campos, que tem uma forma de governar que me agradou, de pensar no pobre, não simplesmente dando bolsas, que são necessárias neste momento, mas dando condição de um dia não precisar mais de bolsa.”

Quanto a Dilma, Beatriz “esperava algo mais efetivo em relação às minorias raciais, às questões de gênero e de orientação sexual”. A professora continua: “As porcentagens de mortes por crimes de ódio não acho aceitáveis. Em Goiânia, estavam matando muito mendigo, usuário de droga”. Ela diz também que a presidente deveria “selecionar melhor os ministros dela, o que ela não está sabendo direito”.

Maioridade penal. Do outro lado do espectro ideológico, Quézia Medeiros, gerente de uma loja de tintas, rejeita o PT, entre outros motivos, pelo fato de o partido ser contra a redução da maioridade penal, que ela gostaria que caísse para 12 anos. “Fui assaltada por um menino de 14 anos que tinha muito mais força que eu”, conta. “Eles têm filhos, usam drogas aos 12 anos. Têm de ser responsabilizados pelo que fazem.”

A gerente anulou o voto na última eleição presidencial. “Fui lá porque é minha obrigação.” Ela ainda não sabe em quem vai votar neste ano. “Tem tanta coisa errada nesse País nosso”, suspira. “Comerciante paga tanto imposto e não é bem distribuído. A gente trabalha, trabalha e não vê resultado.”

“Quando eu era jovem, o PT pregava igualdade”, lembra Quézia, de 50 anos. “Quando eles têm tudo na mão, fazem tudo errado. Falaram uma coisa e fazem o oposto.” No seu setor, o da construção civil, ela reconhece que no governo Lula houve aumento, “não muito”, da atividade, mas diz que o imposto também subiu. “É tudo ilusão”, resume. “O PT gosta muito de aparecer, de tapinha nas costas, mas o Brasil não vive disso.”