Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Para classe C, discurso importante é o do 'eu fiz', diz antropólogo

Pesquisa para conclusão de doutorado da University College London mostra que discussões nacionais não atingem população mais carente

Entrevista com

Juliano Spyer, antropólogo

Marianna Holanda, O Estado de S. Paulo

06 Janeiro 2018 | 05h00

As grandes discussões nacionais não fizeram parte do cotidiano da classe C brasileira. Essa foi a conclusão que o antropólogo Juliano Spyer chegou ao realizar sua pesquisa de campo durante 15 meses na pacata Balduíno, povoado baiano pobre de 15 mil habitantes. Para eles, explica Spyer, política não é abstração. É o candidato que ajuda um parente a arrumar um emprego, é o prefeito que constrói ou não escolas: “O discurso importante é o do “eu fiz”. “Dentro do ciclo contínuo de eleição e desapontamento, fica marcado o nome de quem fez alguma coisa que impactou a vida das pessoas”, afirma.

Usando renda como referência, Spyer descreve os que pertencem à classe c tendo geralmente casa própria, às vezes uma moto, mais escolaridade (principalmente no caso dos mais jovens) e consequentemente melhor acesso a empregos formais. Já quem pertence à classe D, explica, está em condições mais severas de pobreza: muitas vezes não tem casa própria, mora em terrenos invadidos, são principalmente analfabetos funcionais e contam com mais ajuda de programas sociais, como o Bolsa Família.

Spyer realizou seu estudo em 2013 e 2014, para a conclusão do seu doutorado na University College London (UCL). O resultado foi publicado no livro Social Media in Emergent Brazil, disponibilizado online pela universidade. 

De que forma a classe c fala sobre política nas redes sociais?

Eles não falam de política nem nas mídias sociais nem fora das mídias sociais, porque esse é um assunto que não traz nenhum sentimento positivo. O que eles repetem e repetem é que o político aparece para pedir votos, promete uma porção de coisas e depois some. Política, para eles, não é uma abstração. Política é o centro de saúde em que as pessoas precisam chegar às cinco da manhã para fazer fila para pegar senha, para conseguirem ter uma consulta médica no mesmo dia. Nem as jornadas de junho e julho de 2013, quando parecia que o Brasil estava parado, geravam conversa. As pessoas viam aquilo da mesma maneira como viam um protesto em Nova York do Occupy Wall Street. Esses são eventos que repercutem principalmente dentro da "bolha social" das camadas escolarizadas, mas que geralmente não ecoam fora dessa bolha.

 

O sr. esteve lá em 2013 e 2014. Como a eleição foi percebida em Balduíno?

Como eu disse, política não é um assunto que as pessoas gostem de falar por isso poucos se manifestavam sobre esse assunto nas redes sociais quando fiz minha pesquisa de campo. Nessa localidade, os mais escolarizados e de visão mais conservadora atacavam mais abertamente o PT e seus candidatos. Tive a impressão que o Aécio não era um candidato que eles admiravam, apenas alguém que naquele momento era a melhor alternativa ao PT. A Marina também era conhecida, mas era identificada como uma alternativa aos políticos tradicionais principalmente por uma parte das mulheres evangélicas.

O que mudou para as classes mais pobres de 2014 para agora e o que podemos esperar para o ano que vem?

O que mudou em relação a 2014 foi o empobrecimento da população por causa da crise econômica. Em 2014 as pessoas repetiam que ali "só não trabalha quem não quer”. Agora está mais difícil conseguir emprego. Percebi, por exemplo, a circulação de memes que ecoam essa sensação de que houve uma perda de poder de compra. O cenário de 2018 explica, por exemplo, que o ex-presidente Lula apareça à frente nas pesquisas de opinião porque ele é associado a realizações que beneficiaram os mais vulneráveis. Ele tem um legado para mostrar. Mas o mesmo cenário também justifica o apoio a Jair Bolsonaro como uma resposta - semelhante ao da eleição de Trump - de famílias trabalhadoras ao que é percebido como a falsidade da política. Como um amigo, morador dessa  localidade, me explicou recentemente: ele quer Bolsonaro "para explodir com tudo".

Qual era a percepção deles do Bolsonaro? Como ele consegue ficar conhecido no interior da Bahia, onde pouco ou nada se fala de política nacional?

Eu já tinha terminado a pesquisa de campo quando o nome do deputado Jair Bolsonaro passou a ser falado nas mídias sociais, por isso o que eu tenho escutado sobre ele vem de conversas recentes com amigos com quem mantenho contato. O interessante do fenômeno Bolsonaro é ele ser visto como uma espécie de vingador contra as camadas privilegiadas. Meus contatos falam da dificuldade que estão atravessando para conseguir trabalho, para chegar ao trabalho, para manter os filhos na escola pública, para serem atendidos no posto de saúde. Parece que a internet permitiu que os brasileiros dos grupos populares ganhassem consciência de que eles sao tratados como "cidadãos de segunda classe", mas que eles compartilham entre si essa sensação de injustiça. Bolsonaro é percebido como o Trump para os segmentos trabalhadores nos Estados Unidos: como alguém que fala a verdade doa a quem doer e que por isso vai moralizar a política.  

Qual perfil do candidato das camadas populares?

O discurso importante é o do "eu fiz", pelos motivos que expliquei acima. Dentro do ciclo contínuo de eleição e desapontamento, fica marcado o nome de quem fez alguma coisa que impactou a vida das pessoas. Isso vale principalmente para a classe D, que geralmente se expressa menos por ter receio de ser atacada e ridicularizada por sua baixa escolaridade. Por isso, o nome do ex-presidente Lula raramente aparece em conversas no bairro, mas ele aparece nas pesquisas de opinião. Alguns eleitores da classe C, com uma renda um pouco melhor, estão sensíveis ao discurso sobre produtividade, prosperidade e combate à imoralidade.

Como você acha que vai ser a campanha nas redes sociais no ano que vem? Como ela poderia atingir as camadas populares?

Há várias limitações para se chegar às classes c/d pelas redes sociais. Uma dificuldade será a campanha conseguir furar a resistência que existe ao tema da política. Como eu expliquei, a impressão que se tem do político costuma ser a pior possível. O político é quem aparece, faz promessas milagrosas, e depois que é eleito, some. Nesse sentido, a candidatura Lula leva vantagem porque foge à regra. Ele pode dizer o que fez pelos mais pobres. Uma segunda limitação para chegar às classes c/d online importante tem a ver com o profissional que faz o conteúdo. Esse profissional pertence às camadas escolarizadas, cosmopolitas, e costuma torcer o nariz para o que consideram ser o "gosto duvidável" dos usuários mais pobres. Por isso os pobres são ridicularizados por sua suposta vulgaridade e "falta de cultura". O profissional que tem esse background não sabe nem quer fazer produtos para as classes c/d; ele quer fazer a internet parecida com a do Vale do Silício, a internet chique. E finalmente, outra limitação importante é a importância que as campanhas dão para a propaganda na TV. Os profissionais que lideram as campanhas vêm das mídias tradicionais. A TV continua sendo importante hoje, mas fazer da TV o centro da equação significa que todos os outros conteúdos serão adaptações do formato televisivo. Em vez disso, as campanhas precisam olhar para o que está circulando no YouTube e no WhatsApp, mas é difícil os chefes fazerem isso porque geralmente não assistem nem dão valor a esse tipo de conteúdo. Acham feio, mal-feito, improvisado, tosco.

 

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