1. Usuário
Assine o Estadão
assine

1964

Para 90% dos brasileiros, golpe de 64 é história

José Roberto de Toledo - ESTADÃO DADOS

28 Março 2014 | 16h 03

Já entre os deputados federais, apenas 30% nasceram depois da intervenção militar, o que sugere um descompasso nas visões de país dos políticos e dos eleitores

Dos cerca de 200 milhões de pessoas vivendo no Brasil, 160 milhões nasceram após 1.º de abril de 1964. Ou seja, apenas 1 em cada 5 dos brasileiros de hoje estava vivo quando o golpe militar derrubou o presidente João Goulart. E só 1 em cada 10 tinha idade suficiente para entender o que se passava. Os outros 90%, se sabem do golpe, é porque leram nos livros de História.

Como a ditadura durou 21 anos, parte da geração nascida nos anos 60 também viveu as consequências políticas imediatas do golpe. Mas, mesmo entre esses, poucos anos separam os que não puderam, por exemplo, exercer o direito de votar para presidente, pela falta de democracia, dos que puderam. Os atuais prefeitos das duas maiores cidades do País exemplificam ambos os casos.

O paulistano Fernando Haddad tinha 1 ano quando a democracia foi interrompida no Brasil. Em 1982, com 19 anos, pôde votar pela primeira vez, para governador. Mas levaria mais sete anos até que pudesse escolher o presidente. Em 1984, a eleição presidencial foi indireta. Haddad militava no movimento estudantil e participou da campanha das Diretas-Já. A emenda constitucional não passou e ele só pôde votar para presidente aos 26 anos de idade, na eleição de Fernando Collor, em 1989.

O atual prefeito do Rio de Janeiro é o outro caso. Eduardo Paes nasceu em novembro de 1969. Alcançou 18 anos e o direito ao título de eleitor em 1987, quando o civil José Sarney já era presidente por acaso. A primeira eleição na qual o futuro prefeito pôde votar foi em 1988, quando Marcello Alencar se elegeu para o cargo ocupado por ele hoje. Aos 20 anos, como seria de se esperar e se tornaria normal para as gerações seguintes, Paes votou para presidente. Foi a primeira de seis vezes.

Sem censura. Assim como ele, quem nasceu de 1967 para cá nunca deixou de votar por causa da ditadura - porque quando chegou à idade eleitoral o sufrágio direto e universal para todos os cargos e em todos os lugares já havia sido restaurado. Só esporadicamente os filhos de 1967 deixaram de ler uma notícia ou de ver um filme por causa da censura. Por causa de sua pouca idade, 3 a cada 4 brasileiros de hoje correram pouco risco de ser presos e torturados por razões políticas. Mas há exceções, e trágicas.

Carlos Alexandre Azevedo não completara 2 anos de idade quando, em janeiro de 1974, ele e a mãe foram presos pelo Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo). Ser um bebê não o poupou da violência dos seus captores. Em 2009, Azevedo declarou que ainda sofria com o trauma provocado pelos agentes da ditadura: "Tomo antidepressivo e antipsicótico. Tenho fobia social". Suicidou-se em 2013.

Para a imensa maioria dos contemporâneos de Azevedo, e das gerações posteriores à dele, entretanto, a democracia é dada de barato. Faz parte da vida cotidiana, como a TV, a geladeira, o celular e o computador. Parece que estava lá desde sempre.

Para esses brasileiros, felizmente, não foi necessário sair às ruas para garantir direitos básicos como o de votar e ser votado, ou de não ser perseguido pelo Estado por ter convicções ideológicas diferentes das de quem mandava.

Não é demérito, é só um fato. Um fato difícil de perceber pelas gerações de governantes chegados ao poder na redemocratização, após terem sido forjados politicamente sob a ditadura. O Brasil tem sido governado há duas décadas por presidentes marcados pelo exílio, no caso de Fernando Henrique Cardoso, ou pela prisão, nos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff.

Para eles, a democracia foi um objetivo, uma bandeira e uma conquista. Foi desejada e festejada. Os políticos que, mais cedo ou mais tarde, vão sucedê-los nos salões brasilienses herdaram a democracia. Como herdeiros, aprenderam a jogar o jogo do poder quando o voto direto era mais uma peça entre tantas outras.

A sucessão geracional ainda demorará pelo menos uma década. Dos 513 deputados federais assentados hoje no Congresso Nacional, só 30% nasceram após o golpe de 64. Caberá a essas novas safras de políticos cuidar da democracia que herdaram - e compreender e preservar o valor de algo pelo qual não precisaram lutar.

1964