Palocci disse 'não' a Dilma e ganhou a Casa Civil

Negativa do deputado em disputar a próxima eleição foi decisiva para que presidente o escalasse para ser seu mais poderoso auxiliar

Vera Rosa / BRASÍLIA,

02 Janeiro 2011 | 00h01

Antes de convidar o deputado Antonio Palocci Filho (PT-SP) para assumir a chefia da Casa Civil, a presidente Dilma Rousseff fez a ele uma pergunta inesperada. "Você quer ser candidato na próxima eleição?", indagou, sem rodeios. Diante da resposta negativa, Dilma sorriu, um tanto quanto incrédula.

Foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, maior defensor do retorno de Palocci ao primeiro escalão do governo, quem deu a dica para Dilma. O conselho era para que ela lançasse a pergunta a todos os ministeriáveis, incluindo os do PT.

 

No caso de Palocci, porém, o jogo foi combinado com Lula. Quatro anos e nove meses após deixar o comando da Fazenda, ele volta ao governo, desta vez com Dilma, para ser o mais poderoso auxiliar da primeira mulher presidente.

 

Abatido no rastro do escândalo da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa - revelado pelo Estado, em março de 2006 -, Palocci foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Desde agosto de 2009, quando saiu a sentença, sua reabilitação começou a ser planejada pelo Palácio do Planalto.

 

O fiador da política econômica na era Lula transformou-se em avalista da estabilidade política sob Dilma. Emissário da presidente, Palocci atuou como uma espécie de "psicanalista" da transição: sondou nomes para o ministério, foi portador das más notícias para os que deveriam passar o bastão e recebeu pilhas de problemas.

 

A cavalo. Em novembro, por exemplo, após consultar o ministro da Defesa, Nelson Jobim, sobre o interesse dele em permanecer na equipe, ouviu como resposta que a análise deveria ser feita pela própria Dilma.

 

"Quem tem de demonstrar esse interesse é o novo governo, e não eu", devolveu Jobim. Coube a Palocci insistir no "deixa disso" e o titular da Defesa foi mantido. No diagnóstico do PMDB, partido do ministro, Jobim age de forma intempestiva porque "faz política montado a cavalo".

 

Palocci também ouviu os desabafos de Henrique Meirelles - que entrou em rota de colisão com Dilma e foi defenestrado do Banco Central - e acalmou os ânimos no PMDB, irritado por ter de engolir o "abacaxi" da Previdência. No PT, porém, Palocci ainda enfrenta bombardeio e "fogo amigo". É definido por colegas como "enigmático" e tem a indicação atribuída à cota pessoal de Dilma.

 

O ex-ministro José Dirceu, réu no escândalo do mensalão, tentou barrar a ida do colega para a Casa Civil. Não conseguiu. Em conversa com Lula e Dilma, Palocci disse que, se fosse para ser nomeado ministro da Saúde - como Dirceu queria -, preferia não integrar a equipe.

 

Mesmo fora do Planalto, Dirceu promete reeditar uma briga antiga com Palocci. No primeiro mandato de Lula, os dois disputaram os rumos do governo. Agora, o que está em jogo é a fisionomia da gestão Dilma, com uma pitada maior ou menor de desenvolvimentismo. "Não há espaço para concessões à esquerda", avisou Palocci.

 

Sucessora de Dirceu na Casa Civil, Dilma chegou a chamar o ajuste fiscal do então ministro da Fazenda de "rudimentar", com resultados equivalentes a "enxugar gelo". Palocci ficou uma fera.

 

Curinga. Avesso aos holofotes, o homem que idealizou a Carta ao Povo Brasileiro para acalmar o mercado na campanha de Lula, em 2002, e convidou Dilma para integrar a transição, no fim daquele ano, continua sendo um curinga. Foi escolhido para comandar a Casa Civil, mas ninguém sabe se a resposta dada à presidente sobre candidatura é ou não para valer. Nem mesmo ele.

 

Tudo depende do cenário e das nuvens. Nos bastidores do Planalto, o comentário é que Palocci tanto pode ser o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, em 2012, como a governador ou a presidente, em 2014, embora para o último cargo haja uma fila que inclui Dilma e o próprio Lula. Aos que insistem no assunto, o médico Palocci recomenda uma velha e boa receita para combater a ansiedade: "Maracujina".

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