Países europeus e ONGs comemoram críticas de Dilma Rousseff ao Irã

Presidente eleita declarou em entrevista que a decisão do Itamaraty de se abster em uma resolução na ONU que condenava o apedrejamento foi um erro

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2010 | 12h39

Países europeus e ONGs na ONU comemoram as declarações da presidente eleita, Dilma Rousseff, de que estaria disposta a mudar o padrão de votação do País em resoluções que tratem das violações aos direitos humanos no Irã. Para governos, os comentários de Dilma ainda mostram o crescente isolamento que vive o Irã. Mas pedem que a mudança não se limite a temas relacionados com a situação da mulher e que todos os temas de direitos humanos recebam uma nova atenção do novo governo.

 

No domingo, Dilma declarou em uma entrevista ao Washington Post que a decisão do Itamaraty de se abster em uma resolução na ONU que condenava o apedrejamento foi um erro. Há apenas uma semana, o chanceler Celso Amorim havia defendido a opção de abstenção do Brasil, alegando que ele não votava "nem para agradar a imprensa e nem certas ONGs". Pelas declarações, porém, que não gostou foi a própria presidente eleita.

 

Na Comissão Europeia, as declarações de Dilma foram também muito bem recebidas e uma mudança na posição do Brasil era esperada há anos. "O Brasil é uma democracia que tem um papel fundamental hoje nas relações internacionais. Estamos ansiosos para começar a trabalhar com a nova presidente", afirmou Bruxelas, em um e-mail enviado ao Estado.

 

Nos bastidores, diplomatas europeus esperam que a declaração seja o início de uma mudança no posicionamento do Brasil, admitindo não apenas a necessidade de dialogar com os iranianos, mas também a necessidade de usar esse canal aberto com Teerã para pressionar o governo por modificações na proteção de direitos humanos no país.

 

Para Bruxelas, a declaração brasileira vem em um momento em que se revela que o Irã estaria mais isolado que nunca. Uma mudança na posição do Brasil seria, portanto, um golpe ainda mais duro. Nos últimos quatro anos, o tema iraniano alvo de uma controvérsia nas relações entre Bruxelas, Washington e Brasília. Enquanto o mundo criticava a opressão contra os manifestantes que saíram às ruas para protestar em relação às eleições vencidas por Mahmoud Ahmadinejad, Lula preferiu apenas dizer que eram protestos de "torcedores" do time derrotado. Lula chegou a comparar o evento a um jogo do campeonato carioca.

 

Lula ainda criticou a interferência inicial da comunidade internacional em relação ao apedrejamento de Sakineh Ashtiani, iraniana condenada à morte por adultério. Semanas depois, ofereceu asilo em um discurso de campanha para Dilma. Mina Ahadi, presidente do Comitê Internacional contra Execuções, comemorou a declaração de Dilma e quer agora enviar uma delegação ao Brasil para discutir com a nova presidente a participação do País na defesa de direitos humanos. "Uma mudança no padrão de votação do Brasil é muito importante. Sabemos como o Brasil é importante para o Irã e, portanto, ter o Brasil do nosso lado é fundamental", disse Mina, que atua como uma espécie de líder da campanha de apoio à Sakineh.

 

Para Lucia Nader, da ONG brasileira Conectas, a posição de Dilma é positiva. Mas faz seu alerta. "Recebemos com esperança as declarações da presidente eleita, pois se o Brasil quer ocupar papel de destaque no cenário internacional não pode ser ambíguo em relação a princípios e valores", disse.

 

"Cabe ressaltar que a Constituição Federal é enfática ao estabelecer que o Brasil deve reger-se em relações internacionais pela prevalência dos direitos humanos", afirmou. "É ainda importante que a política externa seja mais transparente e aberta à participação da sociedade brasileira", completou.

 

Na Anistia Internacional, a percepção é de que o Brasil seria o único país dos Brics que poderia de fato dar um peso maior às questões de direitos humanos na agenda internacional. Leon Saltiel, da ONG pró-israelense UN Watch, também elogiou as declarações de Dilma, mas espera que a mudança seja mais ampla. "Só esperamos que de fato a mudança ocorra na prática nas votações", disse.

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