País dá salto em enriquecimento de urânio, diz almirante

Em entrevista ao Estado, o diretor do Centro Tecnológico da Marinha fala sobre o programa nuclear brasileiro e diz que o Brasil ´precisa de todo tipo de energia´

Agencia Estado

18 Junho 2007 | 09h40

O programa nuclear brasileiro vai utilizar a partir de maio de 2008 uma nova e poderosa geração de ultracentrífugas - máquinas de alta tecnologia destinadas a enriquecer urânio - ao menos 40% mais eficientes que as atualmente em uso pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB). "Isso representa um salto de qualidade e produtividade no sistema", garante o almirante Carlos Passos Bezerril, diretor do Centro Tecnológico da Marinha (CTMSP), agência de pesquisa com sede no campus da USP, responsável pelo desenvolvimento dos equipamentos. Em entrevista exclusiva ao Estado, Bezerril diz acreditar que o Brasil precisa da energia nuclear "porque precisará de todo tipo de energia que estiver a seu alcance". Uma terceira série, ainda em testes de validação, deve estar disponível em 2011 - e, de novo, será 40% mais eficaz que a versão prevista para o próximo ano. Projeto e construção são nacionais. O urânio enriquecido a 4%, nível adotado pelo País, é o combustível dos reatores de energia. As armas atômicas exigem graus superiores a 90%. O almirante Bezerril comanda cerca de mil homens e mulheres, muitos deles civis. O contingente já foi maior. Em 1988 chegava a 1,5 mil técnicos. Razões de segurança recomendam que o pessoal não deve ser fotografado ou identificado. Bons técnicos. "Aqui há coisa muito boa para ser mostrada", sustenta o almirante, ele mesmo um engenheiro naval formado pela Universidade de São Paulo (USP) que participou do ciclo de construção dos submarinos da classe Tupi, diesel-elétricos, de tecnologia alemã. Confira a entrevista: Em relação às ultracentrífugas do início do programa, qual é a capacidade das máquinas em uso? As máquinas atualmente em uso (da geração A), que a INB usa na unidade de produção de Resende, apresentam desempenho 50 vezes superior às versões iniciais. As máquinas da geração B, em fase de testes, são 40% mais eficientes que a linha A com entrada em operação em 2008. Outra geração, a C, encontra-se na etapa inicial de ensaios de homologação e tem rendimento estimado 40% maior que a do tipo B. A validação dessas máquinas pode demorar até 5 anos. O programa tem recebido os recursos suficientes? Há anos o Programa Nuclear da Marinha encontra-se em estado vegetativo, recebendo fundos suficientes só para o pagamento do pessoal e custeio. Seria necessário à execução do programa uma dotação de R$ 1,040 bilhão até 2015. Sem dinheiro, qual é o foco do trabalho do centro? O esforço está voltado para a revisão técnica dos projetos e o desenvolvimento de novas gerações de ultracentrífugas. Como são feitas as inspeções de segurança da AIEA? A agência necessita verificar de forma contábil o processamento do material nuclear à luz do que o Brasil informa. Para isso é preciso que alguns peritos visitem tecnicamente as nossas instalações, por meio de acesso, sempre gerenciado, e após anuência do governo. O Brasil construiria armas nucleares? Não. Como rege a Constituição, o uso da energia nuclear no Brasil é destinado exclusivamente a fins pacíficos. O País é signatário de tratados internacionais diversos que implicam compromissos de não proliferar material nem tecnologias que possam ser empregados em armas de destruição em massa A matriz energética nacional precisa considerar a fonte nuclear? Sem dúvida o País vai precisar de todo tipo de energia que estiver a seu alcance. Tem um potencial hidrelétrico formidável, deve explorá-lo ao extremo. Mas,por segurança e flexibilidade do sistema, outros tipos de fontes energéticas devem entrar em cena. O Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo (309,3 mil toneladas) tendo prospectado apenas 25% do território. A energia nuclear é limpa e economicamente viável. Quanto, do processamento do urânio, o País ainda não domina? Falta pouco. Falta só a conversão do yellow cake em gás (hexafluoreto). Há uma unidade especializada, semi-industrial, em implantação no CEA, em Iperó. Mais uma vez, depende de haver recursos.

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