Pactos de sangue

Lula é alvo de Palocci e Janot; Joesley é alvo de todos, até dele mesmo

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 05h00

Sai Michel Temer por ora e entram na mira o ex-presidente Lula e o empresário Joesley Batista. O depoimento do ex-poderoso ministro Antonio Palocci é considerado a bala de prata contra Lula, enquanto o arrogante Joesley cuidou de atirar, ele mesmo, no próprio pé – ou no próprio peito. Se o PT vinha lucrando com a desgraça de Temer, não lucra mais.

Lula passou as últimas semanas encenando o papel de candidato a presidente, mas essa possibilidade é cada vez mais distante. Numa única semana, e numa semana com feriado na quinta-feira, ele foi atingido duramente duas vezes: além de Palocci denunciar o “pacto de sangue” entre PT e Odebrecht, o procurador Rodrigo Janot denunciou Lula e a pupila Dilma Rousseff por organização criminosa.

Condenado num processo e réu em cinco outros, Lula parece ter sete vidas políticas, mas vai consumindo uma a uma, com as denúncias de desvios, escândalos e favorecimento pessoal ilícito. O PT e seus seguidores não têm mais como atribuir as agruras de Lula na Justiça ao juiz Sérgio Moro ou à elite malvada, à direita enraivecida ou à mídia parcial.

Quem agora denuncia Lula é Janot, que até pode ser considerado inimigo de Temer, mas nunca foi chamado de inimigo do petista. E ele não denunciou apenas Lula, mas também Dilma, o próprio Palocci, mais três ex-ministros, o ex-tesoureiro do PT Vaccari Neto e a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann. E pediu o bloqueio de nada modestos R$ 6,5 bilhões da turma.

E quem está contando os podres de Lula e o PT é Palocci, legítimo representante da elite, mas da elite do PT e dos governos Lula e Dilma, dos quais, aliás, caiu estrondosamente – e por suspeitas de corrupção. Logo, Palocci participou de tudo e sabe bem como as coisas funcionavam. Já imaginaram uma acareação pública entre Lula e Palocci?!

Lula está gravemente baleado e vai perdendo seu discurso de vítima e sua eterna condição de inimputável. Com um detalhe: desde o início, inclusive aqui neste espaço, falou-se que Antonio Palocci não é um José Dirceu. Há um gap de ideologia, de compromisso, talvez de caráter. Dirceu tem aguentado firme e forte, mas Palocci iria cair mais cedo ou mais tarde. Aliás, como Guido Mantega, o próximo a abrir a boca.

A balança entre Temer e Joesley Batista também inverteu. Se Joesley armou uma armadilha para Temer e quase derrubou um presidente da República, é a vez de Temer assistir, de camarote, à desgraça do seu algoz, com o sabor extra de sentir a aflição de Janot, que agora flecha e é flechado.

A conversa asquerosa com Ricardo Saud revela um Joesley simplório, mas megalomaníaco. Tinha certeza de que jamais seria preso, ameaçava “moer” o Executivo e o Judiciário e gabava-se de comprar qualquer um, mas deve ser preso, sim, como pede o ministro do STF Luiz Fux, está sendo moído pela PGR que manipulou e servido de bandeja para a opinião pública. O ex-poderoso Joesley virou uma ilha, cercado por todos os lados. Tudo o que disser, daqui em diante, será usado contra ele.

Temer tem 15 minutos de alívio, mas deve ser prudente. Nenhuma imagem foi tão avassaladora, em três anos e meio de Lava Jato, quanto o apartamento cheio de malas e caixas com R$ 51 milhões – R$ 51 milhões! – do seu amigo e ex-ministro Geddel Vieira Lima. Geddel foi vice-presidente da CEF no governo Dilma, mas sua identificação pública e política é com Temer. A mala de dinheiro do ex-assessor Rocha Loures já fez bom estrago na imagem do presidente. Imagine-se um apartamento de dinheiro do ex-ministro Geddel? Na próxima semana, as flechas de Janot devem se voltar de novo contra Temer, seu alvo preferencial.

PS: Enfim, duas semanas de férias. Até a volta!

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