Ou protagonistas ou nada

PT e PSDB não podem mais bater no peito para falar de questões morais

João Domingos, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 03h00

A oito meses e quatro dias do primeiro turno, a situação política do País é tão confusa que PT e PSDB, que foram os protagonistas das eleições presidenciais de 1994 para cá, podem tanto repetir o duelo, que se refletiu fortemente entre os chamados coxinhas e petralhas, quanto não chegar a lugar nenhum. 

PT e PSDB não são hoje nem sombra do que já foram. Não podem mais bater no peito para falar de questões éticas e morais. A Operação Lava Jato atingiu um e outro com igual intensidade. Lideranças únicas, como Lula, no PT, e muito importantes, como o senador Aécio Neves (MG), no PSDB, estão a perigo. O ex-presidente pode até não participar da eleição, pois condenado em segunda instância e sob risco de ser preso num prazo curto; Aécio é hoje uma espécie de fantasma, do qual muitos querem distância. Pode ter dificuldades para se reeleger senador.

Os dois partidos também têm cometido muitos erros. Ao enfrentar a Justiça, como tem enfrentado, o PT corre o risco de despertar o espírito corporativo do Judiciário e perder apoio até mesmo entre aqueles que um dia simpatizaram com o partido. Nunca é demais lembrar que a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), é ré no Supremo Tribunal Federal. E que o senador Lindbergh Farias (RJ), que vem pregando a sublevação dos militantes petistas contra as decisões da Justiça, também é investigado na Lava Jato. 

Já o PSDB errou ao não aceitar o resultado da eleição de 2014. Depois, tornou-se protagonista do impeachment e principal partido da base de sustentação de Michel Temer. Mas, com medo do contágio da impopularidade de Temer, decidiu abandonar o barco. Só que nunca conseguiu tirar do eleitor a imagem de que agiu pelo mais puro oportunismo. A identificação é tão forte que não há nada que consiga desgrudar a imagem do PSDB do governador Geraldo Alckmin do MDB de Michel Temer.

Existem algumas saídas para PT e PSDB no que diz respeito à sucessão presidencial. O PT, por exemplo, pode continuar a insistir nos vários lançamentos da pré-candidatura de Lula, como fará no dia 7, em Belo Horizonte. Mas deveria trabalhar o nome de um vice que, no impedimento definitivo de Lula, já tivesse se tornado uma figura conhecida do eleitorado. Daí, o ex-presidente anunciaria apenas sua saída da eleição, e passaria a apoiar o nome do vice. Ganharia um tempão. Acontece que existe um problema prático nessa questão. O vice dos sonhos do PT é o empresário Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar, duas vezes vice de Lula. Acontece que, embora afastado do partido, Josué é filiado ao MDB, que dificilmente fará coligação com o PT. Ou Josué muda sua filiação, ou não poderá se candidatar. Se entrasse no PT, o PT o aceitaria? É possível que não. Nesse caso, Lula terá de buscar outro nome para a vice, sabendo que ele poderá se tornar cabeça de chapa. O favorito é o ex-governador da Bahia Jaques Wagner.

Quanto ao PSDB, Alckmin poderia reduzir alguns dos problemas que tem pela frente convencendo o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, a desistir de disputar as prévias eleitorais com ele. De um jeito ou de outro essa disputa provoca desgastes, além de tomar tempo de Alckmin, que patina nas pesquisas eleitorais. Outra questão a resolver é quanto a seu vice, Márcio França, do PSB. França vai assumir o governo em abril, quando Alckmin for obrigado a se afastar. E já anunciou que demitirá os secretários tucanos, pois estes tendem a apoiar outro candidato ao governo de São Paulo. Nos últimos dias Alckmin iniciou um movimento visando a filiar França ao PSDB. Se der certo, terá eliminado uma dor de cabeça. Do ponto de vista eleitoral, não perderá nada tirando França do PSB, porque o partido do ex-governador Eduardo Campos não fará aliança com ele.

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