André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Opositor de Janot diz que PGR só deve atirar contra Congresso quando tiver 'bala de grosso calibre'

Apontado com ligado ao presidente da Câmara Eduardo Cunha, subprocurador Carlos Frederico Santos tem adotado discurso mais duro em relação à gestão atual

Beatriz Bulla e Talita Fernandes, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2015 | 17h32

Brasília - O subprocurador Carlos Frederico Santos, principal adversário do atual procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na disputa pela vaga de chefe do Ministério Público Federal fez críticas indiretas às relações da instituição com o Congresso Nacional, insinuando uma atuação "midiática" na Operação Lava Jato. Ele defendeu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) tenha boa relação institucional com o Legislativo para viabilizar conquistas para a carreira e só atire contra parlamentares quando tiver "bala de grosso calibre".

 

"Faça seu trabalho, mas não de forma midiática. Isso prejudica a relação institucional. Denuncie, agilize, densifique o calibre da sua bala. Quando atirar, atire para derrubar, isso minimiza a questão das relações institucionais", afirmou Frederico, em debate entre os quatro candidatos à cadeira de procurador-geral da República para os próximos dois anos. 

 

Desde que pediu a abertura de investigações, no âmbito da Operação Lava Jato, de 52 políticos perante o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ), Janot tem sido alvo de críticas de parlamentares. O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), um dos investigados, acusa Janot de conduzir a apuração de forma "pessoal".

O ex-presidente da República e senador Fernando Collor (PTB-AL), que teve seus veículos de luxo apreendidos pelo Supremo no decorrer as investigações, reforça o coro dos insatisfeitos com o procurador-geral e costuma fazer uso da tribuna no Senado para classificar como "atos ilegais" as investigações conduzidas por Janot.

 

Em meio à guerra declarada de deputados e senadores investigados contra Janot, Carlos Frederico Santos disse que é necessário que o procurador-geral da República "se relacione diretamente" com parlamentares. As críticas foram feitas em respostas a perguntas sobre gratificações e remuneração de servidores, além de aumento de quadro funcional. "Eu pretendo resolver esses problemas abrindo portas, vendo a melhor maneira possível de evitar o desgaste das relações institucionais e indo lá no Congresso Nacional. E só atirar quando tiver bala de grosso calibre", disse. 

 

Janot conduz as investigações de políticos na Lava Jato desde a abertura dos inquéritos, no início de março. A apuração, feita em conjunto com a Polícia Federal, já foi prorrogada por duas vezes, com autorização do ministro Teori Zavascki, do STF. A expectativa é que, antes de encerrar o mandato em 18 de setembro, Janot encaminhe ao Supremo parte das denúncias - acusações formais - nos casos em que concluir que a investigação já traz indícios de provas suficientes. O procurador-geral da República evitou entrar em confronto direto com Carlos Frederico Santos, limitando respostas a questões técnicas e saiu do debate sem falar com a imprensa. 

 

Janot disse, ao final do debate, que almeja um novo mandato como procurador-geral para terminar o trabalho que deu início. "Eu quero terminar e, se não terminar, encaminhar aquilo que comecei. Acho que temos ótimos projetos em curso, trabalhos bem desenvolvidos em curso", disse. O procurador-geral disse ainda que esses trabalhos não são apenas dele, mas que foram desenvolvidos em grupo. "Tenho certeza de que o evoluir é tão importante quanto não retroceder", disse.

 

Frederico fez questão de frisar que "não tem resistência dentro do Congresso Nacional", pois soube manter "portas abertas". Entre os três candidatos que concorrem com Janot, ele é o que tem discurso mais duro em relação à gestão atual.  Conforme reportagem do Estado, Frederico é apontado como um nome ligado ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A relação é fundamentada por procuradores com base no fato de que Carlos Frederico Santos exerceu cargo de secretário-geral da Procuradoria-Geral na época em que a instituição foi comandada por Antonio Fernando de Souza. Atualmente, o ex-procurador-geral da República é advogado de Cunha no inquérito que apura a participação do parlamentar na Lava Jato. Tanto Cunha como o subprocurador negam o apoio.

 

Além de Janot e Carlos Frederico, concorrem à vaga de procurador-geral da República os subprocuradores Raquel Dodge e Mario Bonsaglia. O debate foi promovido pela Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT), Associação dos Membros do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (AMPDFT) e pela Associação Nacional do Ministério Público Militar (ANMPM). Os candidatos não fizeram perguntas diretas e responderam perguntas de integrantes dos três ramos do Ministério Público da União presentes, com temas focados em questões corporativas.

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