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Andre Penner/ AP

Okamotto alega que cobertura vizinha à de Lula 'não podia ter desconhecido' como dono

Dirigente do instituto do petista confirma aluguel de apartamento em São Bernardo, revelado pelo 'Estado', mas não explica por que o próprio ex-presidente não comprou o imóvel após deixar o Planalto

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Ana Fernandes,
O Estado de S. Paulo

07 Março 2016 | 11h56

O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, confirmou na manhã desta segunda-feira, 7, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aluga a cobertura vizinha ao imóvel do qual é proprietário, em São Bernardo do Campo

Perguntado por que o próprio Lula não comprou o apartamento, Okamotto afirmou que não o fez porque a negociação da compra ocorreu quando ele ainda estava na Presidência. "Não comprou porque era presidente, uma questão de oportunidade. Ali havia uma oportunidade para a pessoa que comprasse porque me parece que aquele apartamento está em discussão de espólio, então tem uma dificuldade adicional", respondeu rapidamente ao se afastar dos jornalistas. 

Reportagem do Estado revelou hoje que o aposentado Glaucos da Costamarques, morador de Campo Grande (MS), comprou o apartamento número 121 do condomínio Hill House, vizinho à cobertura 122 pertencente a Lula, em 2011. O imóvel já havia sido alugado pelo PT, entre 2003 e 2006, e pela Presidência de 2007 a 2010. Ao jornal, Glaucos afirmou ter fechado o negócio por sugestão do advogado Roberto Teixeira, representante legal e compadre de Lula.

Segundo Okamotto, haveria uma "necessidade" de que o proprietário da cobertura 121 fosse "uma pessoa conhecida", a fim de evitar transtornos decorrentes de se ter um ex-presidente da República como vizinho. O presidente do Instituto Lula não explicou, no entanto, por que o próprio petista não poderia ter comprado a unidade, negociada por R$ 500 mil, segundo o próprio Glaucos informou à reportagem do Estado

"Aquele prédio de São Bernardo foi alugado e o aluguel continua, em vez de estar alugado pelo governo, agora está alugado pelo presidente" afirmou Okamotto. "Ali precisava ser de alguma pessoa que comprasse aquilo e não tivesse interesse de usar. Todo mundo que comprasse aquilo saberia que aquilo ali sai de frente a frente ao apartamento (de Lula). Você ser vizinho de um político sempre tem transtorno, então a pessoa que vai comprar não pode ser uma pessoa desconhecida."

A cobertura 121 também foi alvo de busca e apreensão na 24ª fase da Lava Jato, deflagrada na sexta-feira e que levou Lula a depor à força à Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas. Os federais só souberam que Lula também usava esse apartamento por indicação do síndico do condomínio, e puderam acessar o local após autorização por escrito da ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Okamotto também foi levado a depor coercitivamente e, segundo a PF, é suspeito de viabilizar a lavagem de R$ 1,292 milhões de pagamentos da empreiteira OAS para o ex-presidente Lula. O presidente do Instituto Lula tentou minimizar a suspeita. "Lavagem de quê?", questionou.

Ele relatou que, na sexta-feira, a PF o questionou sobre o funcionamento do instituto, a realização das palestras do ex-presidente e a arrecadação. "Perguntaram como funciona o instituto, expliquei a finalidade de preservar o legado do presidente, o trabalho do presidente na América Latina e na África. Perguntaram como é a arrecadação, quem fazia os contatos com a arrecadação, expliquei que era eu. Perguntaram sobre as palestras, essas coisas."

Okamotto disse que, além de demonstrar com provas à Justiça que não há irregularidades nas atividades do instituto e do ex-presidente Lula, é importante a comunicação com a população. "Temos também que dialogar com a população, com o povo brasileiro. Vamos explicar como são feitas as palestras, em que países aconteceram. Vamos explicar o que se faz com os recursos do Instituto Lula, para desmistificar", afirmou. "De uma certa forma o presidente Lula foi muito humilhado, a família dele humilhada. Ao longo desses anos todos, as pessoas vêm falando que ele é o homem mais rico do Brasil, outras pessoas falam que ele é dono da Telemar, dono da Oi, da Friboi, tem fazendas, helicóptero, ilha, há uma cultura de que o Lula, sua família, seu entorno... Precisamos dialogar com a sociedade brasileira, explicar essa situação, porque isso não vai levar a lugar nenhum."

Pagamento. Okamotto esclareceu que é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem paga os aluguéis da cobertura vizinha ao seu apartamento em São Bernardo do Campo. "Os pagamentos foram feitos pelo presidente Lula, está na declaração do imposto de renda, sossegado", afirmou nesta tarde.

O presidente do instituto disse não ver problemas em se apresentar os comprovantes de pagamento dos aluguéis, como quer a oposição na Câmara dos Deputados. Ele deu a entender que foi procurada uma pessoa, de fato, para comprar o imóvel com o intuito exclusivo de alugá-lo para o ex-presidente.

Okamotto, no entanto, não sabe dizer se Lula fez algum pedido para que Glaucos da Costamarques - primo do pecuarista José Carlos Bumlai - comprasse o apartamento. "Há muitos anos, quando o presidente mudou para aquele apartamento, por uma questão de privacidade, uma questão de segurança, os apartamentos encontram uma porta com a outra no elevador, então o PT alugou.

Depois Lula foi eleito presidente da República, então também por uma questão de segurança, a Presidência da República alugou aquele apartamento. No final já do mandato, tinha um processo de venda do apartamento e se achou uma pessoa pra comprar esse apartamento que tivesse apenas o interesse de investir e não de morar e foi isso que foi feito."

Porém, quando questionado se o PT ou Lula pediram para Costamarques comprar o imóvel, Okamottorespondeu: "O PT não". O presidente do instituto disse não ter certeza se Lula conhece pessoalmente o primo de Bumlai. Próximo de Lula, Bumlai está desde 29 de novembro.

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