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O VEREADOR QUE DESAFIA O PALÁCIO

Matarazzo reedita disputa entre ‘autênticos’ e ‘amassadores de barro’

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Pedro Venceslau,
O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2016 | 08h24

Sobrinho neto do industrial Ciccillo Matarazzo (1898-1977) e primo em segundo grau do ex-senador petista Eduardo Suplicy, o vereador Andrea Matarazzo encarna como poucos o estereótipo do tucano paulista.

Conhecido por ter hábitos refinados e boa formação intelectual, ele integrou (apesar de não morar na região), a chamada “República de Higienópolis”. O nome é uma referência ao bairro nobre paulistano onde reside o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e boa parte dos tucanos que fundaram o PSDB e estiveram no primeiro escalão do partido no Palácio do Planalto.

O perfil de Matarazzo é diametralmente oposto ao do governador Geraldo Alckmin, um típico político do interior, de origem humilde e que cresceu na legenda, segundo seus correligionários, “amassando barro” ao lado do ex-governador Mário Covas.

O acirramento das prévias que definirão o candidato do PSDB à Prefeitura da capital colocou em linha de combate aberto o grupo do vereador, que é apoiado, entre outros, por FHC, pelos senadores José Serra e Aloysio Nunes e pelo ex-governador Alberto Goldman, e o do empresário João Doria Jr., o candidato de Alckmin.

No imaginário dos tucanos, o embate nada mais é que a reedição da disputa entre os “autênticos” e a turma do “amassa barro” que ocorreu em 2008. Na campanha pela Prefeitura daquele ano, Geraldo Alckmin enfrentou e foi derrotado pelo então prefeito Gilberto Kassab, aliado e ex-vice de José Serra.

Então secretário das Subprefeituras de Kassab, Matarazzo permaneceu no cargo e não fez campanha para Alckmin. Serra também não. O episódio causou um profundo racha no partido.

Três anos depois, a relação entre Alckmin e Matarazzo se deteriorou novamente quando o site WikiLeaks vazou conversas reservadas entre ele, então secretário de Cultura de São Paulo, e diplomatas norte-americanos feitas em 2006.

No diálogo, o hoje vereador afirmou que o governador pertencia à prelazia Opus Dei (setor ultraconservador da Igreja Católica). “Eu não disse aquilo de forma pejorativa, até porque boa parte da minha família é da Opus Dei”, desconversou Andrea em entrevista ao Estado na sexta-feira.

Oito anos depois da vitória de Kassab, o cenário se inverteu. Faltando 15 dias para as prévias que definirão o nome do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, Andrea Matarazzo vive uma situação paradoxal. Apesar de contar com o apoio aberto dos principais cardeais da legenda no Estado, seu nome já está sendo “cristianizado” nos bastidores da máquina partidária.

O termo surgiu na campanha presidencial de 1950, quando Cristiano Machado, candidato à Presidência do antigo PSD, foi abandonado por aliados e correligionários, que veladamente ajudaram Getúlio Vargas, do PTB.

Esse cenário já é esperado no entorno de Matarazzo. Eles preveem que, em caso de vitória nas prévias, no dia seguinte começarão a surgir pré-candidatos no PSB, DEM, SD, PTB e nanicos que orbitam na área de influência da máquina paulista.

O caso que mais salta aos olhos é do PSB. A cúpula da sigla do vice-governador Márcio França, aliado de Alckmin, já abriu canais de diálogo até com o PRB, do pré-candidato Celso Russomanno, para o caso de ser necessário um plano B. O plano A é a vitória de João Doria Jr.

Tucanos com trânsito no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, culpam Matarazzo pelo racha na sigla, que conta com três concorrentes nas prévias. Além de Doria e Matarazzo, o deputado Ricardo Tripoli se apresentou.

Argumentam que o vereador se articulou à revelia do “principal cabo eleitoral do partido” e tentou transformar seu nome em fato consumado.

Dizem, ainda, que ele não está “afinado” com o projeto de Alckmin de concorrer à Presidência em 2018. Já Doria é considerado um “amigo e aliado leal”.

“Nada foi feito à revelia (de Alckmin). A cada 15 dias eu me encontrava com ele. A diferença é que eu sempre achei que não devia alardear isso, e sim ele, se assim quisesse”, diz Matarazzo. “A primeira pessoa com quem falei sobre ser candidato a prefeito foi o governador, que disse: siga em frente. Minha candidatura não é de oposição ao governador”, insiste.

Obsessão. Matarazzo é um dos herdeiros das empresas que levam seu sobrenome. Até 1995, ele dirigiu a Metalma – Metalúrgica Matarazzo S. A, que foi uma dos maiores fabricantes de embalagens metálicas do País.

Vinte e um anos depois de abandonar os negócios para entrar na vida pública, ele ainda é acionista da empresa e mantém um amplo e elegante escritório político na sede do grupo, no centro da cidade.

Depois da eleição de FHC para a Presidência, Andrea mudou-se para a Brasília junto com a chamada “República de Higienópolis”. Após ser ministro das Comunicações e embaixador do Brasil na Itália, voltou ao País, onde ocupou vários cargos de primeira escalão na máquina tucana estadual. Ele “se encontrou”, porém, na secretaria das Subprefeituras.

E, desde então, só pensa em ser prefeito. “Venho construindo essa candidatura há dez anos”, afirma. Em 2012 foi eleito vereador com 117.617 votos. Chegou a se enfadar com a rotina parlamentar e afirmou que não concorreria a um novo mandato na Câmara Municipal.

Quando o caminho para a eleição de 2016 pareceu se obstruir diante das disputas internas do diretório paulistano, cogitou, segundo amigos, concorrer por outra sigla. Quando questionado sobre esse cenário, Matarazzo nega enfaticamente. Mas reconhece que o amigo Kassab, hoje ministro das Cidades e presidente do PSD, abriu-lhe as portas de sua legenda em caso de derrota nas prévias.

“Ele (Kassab) realmente deixou a porta aberta, mas meu partido sempre foi o PSDB. Na política você conversa com os aliados. Conheço o Gilberto Kassab há muitos anos. Sempre tivemos uma ótima relação”, pontua o vereador.

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