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1964

O trabalho voluntário dos agentes do DOI-Codi

Marcelo Godoy - O Estado de S.Paulo

28 Março 2014 | 20h 13

Policiais militares relatam como foram parar no destacamento; ouça os relatos dos militares sobre a tortura e morte no regime

Ouça trechos das entrevistas com o agente Nelson, o Pai Velho,

e com a tenente Neuza

 

A Polícia Militar de São Paulo forneceu cerca de 70% da mão de obra para o DOI (Destacamento de Operações de Informações ) de São Paulo. Primeiro e maior de todos os destacamentos do País, ele tinha 250 homens do Exército, da Marinha, Aeronáutica e das Polícias Civil, Militar e Federal. Apesar da maciça presença de policiais, os comandos da seções eram todos exercidos por militares do Exército.

 

Quase sempre subalternos naquela estrutura, os homens da polícia Subalternos nessa estrutura, os policiais levaram para o órgão a maioria das táticas necessárias à execução da estratégia militar que visava aniquilar, neutralizar seus inimigos. Da PM vieram soldados, sargentos e oficiais, muitos dos quais foram indicados por seus chefes para o trabalho no DOI.

 

O sargento da PM Nelson, chamado de Pai Velho pelos colegas, foi um dos homens que foi parar no destacamento sem saber muito bem por quê. Queria se afastar da radiopatrulha, na qual trabalhava e testemunhara a execução de um preso feita pelo esquadrão da morte, chefiado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury.

 

-O que o senhor viu?

-Vi ele matar um cara lá de tijolada

-Quando?

-Quando ele era ainda da radiopatrulha (...). Eu vi ele fazer isso e achei um negócio chato. Aí pedi minha saída de lá.

 

Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI (esq.)

 

Nelson ficou de 1969 a 1977 trabalhando no DOI. Era um homem da Seção de Busca do órgão, responsável pelo estouros de aparelhos e prisões de procurados identificados. Era a face visível do órgão, a exemplo de sua Seção de Interrogatório. "Eu sempre fui um cara que não tinha falta nenhuma. Então, me escolheram, mas tinha cabra safado também. Fui lá trabalhar com o Devanir (o capitão Devanir de Castro Queiroz, da PM) e saí de lá quando acabou (o serviço de busca)", contou.

 

Ser indicado para trabalhar no DOI não significava ser obrigado a permanecer no órgão. O então capitão da PM Mário Fonseca Ventura indicou dois de seus homens para compor os quadros do DOI em 1969, quando ele ainda era conhecido como Operação Bandeirante. "Geralmente eram homens de confiança", disse o capitão. Ventura, que nunca trabalhou no destacamento, afirmou que os homens que ele indicou - o soldado Menezes e o sargento Fenelon - mostraram no destacamento características completamente diferentes. "Um se acostumou (Fenelon) com o serviço e se deu bem lá e o outro (soldado Menezes) , uma semana depois, veio pedir pra mim para tirá-lo daquele esquema, uma vez que ele via muita coisa irregular e não estava acostumado com isso. Ele foi substituído Nós indicamos outro e recolhemos o Menezes."

 

Não houve nenhuma consequência para carreira de Menezes. A decisão de permanecer ou de sair do DOI era mera questão administrativa. Ninguém foi obrigado a trabalhar lá, nem à matar, torturar ou sequestrar. Quem aderiu a essas condutas o fez, segundo o relatos dos agentes entrevistados e dos oficiais da época, de forma consciente.

 

Esse foi o caso da tenente Neuza, uma das mulheres que foi trabalhar no DOI. Nascida em 1936, na região de Bauru, no interior paulista ela tinha sete irmãos. Entrara para o Corpo de Polícia Feminina quando havia pouco mais de uma dúzia de mulheres trabalhando no órgão. Era tenente e morava na zona leste com cinco sobrinhos quando a mandaram trabalhar no DOI. O destacamento precisava de uma mulher para que uma equipe de agentes se infiltrasse em reuniões de casais de uma igreja na zona leste de São Paulo.

 

O trabalho deu tão certo que resolveram mantê-la no órgão e trazer outras mulheres para o destacamento. Neuza recebeu a Medalha do Pacificador em 1973. Participou de operações que terminaram com seis mortes, além de inúmeras prisões, muitas das quais terminaram com o detido indo parar na lista de desaparecidos políticos do regime. "Era uma guerra e eu estava defendendo a minha Pátria . Era um patriotismo , uma amor à Pátria que sinto até hoje. Se não fosse nosso trabalho, o Brasil hoje seria uma Cuba. Era o que eles queriam."

 

Neuza não tem arrependimento. Uma vez contou:

"Tinha muita gente que era presa e o jornal, você sabe que tinha censura, era complicado. Então falavam que o cara havia morrido no tiroteio. Levavam uma pessoa parecida, balas de festim e ‘matavam’ um dos nossos lá. Mas o cara [O PRESO]ainda estava vivo. Aí ia ver se ele entregava alguma coisa, mas dificilmente entregava (...). Eles tentavam interrogar, mas o cara não queria falar nada e aí viajava. (...) Uma vez, eles (os guerrilheiros) fizeram um panfleto dizendo que eles sabiam do endereço de várias pessoas de lá da Casa da Vovó. Não se podia arriscar, que (os guerrilheiros), sabendo que ele [O PRESO]estava vivo, tentassem pegar alguém dos nossos para fazer uma troca. Então tinha que falar que ele [O PRESO]tinha morrido. Eu lembro um dia do Sinício... coitado ele não sabia de nada. Chegaram lá e deram uns tiros de festim num colega dele. (...) Ele não sabia do cirquinho que iam fazer e pra ele foi real. O Aldeia que deu os tiros. ‘Por que é que o Aldeia está matando ele?’ (dizia o Sinício), depois o Sinício me contava (...) Fazia o cirquinho e o jornal publicava que eles tinham sido mortos num tiroteio."

 

Neuza saiu do DOI no fim de 1975. Jamais se casou. Aposentou-se e vive no interior.

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GLOSÁRIO DO DOI-CODI:

PAU DE ARARA. Método de tortura usado no DOI no qual o detido é pendurado em uma barra. Nessa posição, com a cabeça pendendo para baixo e nu, a vítima era espancada e levava choques elétricos

PACIENTE: Termo usado pelo agentes do DOI para designar pessoas sob vigilância ou pessoas presas pela Seção de Investigação do destacamento

VIAJAR: Termo usado pelos agentes para a ação de matar alguém e desaparecer com seu corpo

CUBANOS: Termo usado para designar guerrilheiros que faziam treinamento militar em Cuba

CASA DA VOVÓ: Apelido dado pelos agentes para o DOI. Era assim que muitos deles se referiam ao destacamento

CLÍNICA GERAL: Era o nome código usado para designar o chefe da Seção de Investigação do DOI, o capitão Ênio Pimentel da Silveira

1964

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