O tempo é dinheiro

Difícil relator do TSE não dar parecer pela cassação da chapa Dilma-Temer

João Domingos, O Estado de S.Paulo

25 Março 2017 | 03h00

Tudo o que foi apurado pela Operação Lava Jato nestes três anos – seja pela investigação em si, seja pelas delações feitas por ex-diretores da Petrobrás, dirigentes partidários, políticos, operadores de finanças e executivos de empreiteiras – revelou um escândalo extraordinário, para usar o adjetivo preferido do ex-presidente Lula, adotado agora pelo presidente Michel Temer. Extraordinário porque envolveu cifras bilionárias numa ação continuada que praticamente quebrou uma estatal inquebrável, entrou em outras estatais, cooptou para o mal cientistas do bem, avançou sobre o dinheiro dos fundos de pensão, levou à cadeia políticos que gozavam de credibilidade e exportou corrupção “made in Brazil”. 

Mas o que estão revelando agora ao TSE os depoimentos de ex-executivos da Odebrecht a respeito da campanha eleitoral de 2014 ultrapassa os limites do extraordinário. Porque, ao contrário lá da Lava Jato, em que se compravam altos funcionários para se garantir contratos – o elementar num processo de corrupção –, o que se desvela para todo o Brasil com o depoimento dos ex-dirigentes da empresa é a compra de programas eleitorais de partidos que depois se aliariam à campanha de Dilma Rousseff. 

Disse ao TSE o ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Alexandrino Alencar que ele mesmo operou a entrega de R$ 21 milhões, em espécie, a PC do B, PRB e PROS pelo espaço no programa de TV. Para cada um caberiam R$ 7 milhões. PROS e PRB são dois partidos sem ideologia. O PC do B, no entanto, é o aliado mais fiel do PT. 

A compra do tempo dos três partidos, como relatada, remete ao que foi descoberto durante o escândalo do mensalão. Tanto o delator do esquema, o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, quanto o ex-deputado Valdemar Costa Neto, do extinto PL, contaram em depoimento à CPI dos Correios, de 2005, que aderiram à chapa de Lula, em 2002, porque o PT prometeu-lhes pagar dívidas passadas e gastos de campanha. Já no julgamento do mensalão, em 2012, Costa Neto revelou ao Supremo Tribunal Federal que o acordo com o PT, para que cedesse o empresário José Alencar para a chapa de Lula, previa o repasse do caixa dos petistas para o caixa do PL de R$ 40 milhões. Acontece que o PT não pagou o acordado. Costa Neto abriu a boca.

Não é só isso. Marcelo Odebrecht, herdeiro do conglomerado empresarial, disse que foi ele que inventou a campanha de Dilma Rousseff. Ora, se um empreiteiro muito próximo do partido que está no governo inventa uma candidatura, ou, no caso, inventa a reeleição de Dilma, ele só pode estar querendo tirar vantagem do novo mandato. Trata-se, ainda, de uma revelação interessante. Todo mundo sabe que Lula esperava que Dilma não se candidatasse à reeleição, abrindo assim espaço para ele. Mas Dilma se candidatou. E carregou Michel Temer com ela para um repeteco da chapa de 2010. 

A se levar em conta o que disseram os ex-executivos da Odebrecht ao TSE, será difícil que o ministro Herman Benjamin, relator do processo que pede a cassação da chapa Dilma-Temer por abuso do poder econômico, não dê parecer favorável à ação, movida pelo PSDB. Caso isso ocorra, como suspeita o Palácio do Planalto que vai ocorrer, restará a Temer buscar convencer os ministros do TSE de que sua campanha foi apartada da feita pela petista. Não será fácil. Mas, como disse o presidente do TSE, Gilmar Mendes, os ministros votam também pensando na estabilidade política do País. 

Como Dilma sofreu o processo de impeachment, uma eventual condenação dela no TSE resultará na perda dos direitos políticos, direitos que ela conseguiu preservar quando teve o mandato cassado pelos senadores.

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