O que se espera da Lava Jato após a condenação do ex-presidente Lula

A grande questão reside no papel da operação e seu raio de alcance no combate à corrupção

Danilo Cersosimo, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 03h00

A condenação do ex-presidente Lula pelo TRF-4 no último dia 24 não traz implicações somente para sua candidatura ou para a corrida eleitoral que se avizinha. A grande questão reside no papel da Lava Jato e seu raio de alcance no combate à corrupção. 

Desde 2016 monitorando as percepções da opinião pública sobre as investigações da Operação Lava Jato, o Pulso Brasil¹ da Ipsos vem revelando um apoio quase unânime a ela – em janeiro (a pesquisa foi realizada antes do julgamento do ex-presidente Lula), 91% dos brasileiros concordavam com o argumento de que a “Lava Jato deveria continuar com as investigações até o fim, custe o que custar”. 

No entanto, qual é o custo que estamos dispostos a pagar? Para 85% das pessoas ouvidas, a Lava Jato “deveria continuar as investigações até o fim, mesmo que isso traga mais instabilidade política”; já para 81% das pessoas a operação “deveria continuar até o fim, mesmo que isso traga mais instabilidade econômica”. Porém, tais argumentos contavam com níveis de concordância maiores há alguns meses, com 95% e 94% respectivamente, em junho do ano passado. Vale notar que apenas 37% dos brasileiros acreditam que a Lava Jato está piorando a situação da economia e do desemprego no Brasil (essa percepção foi maior em janeiro de 2016, com 46%).   

Nos últimos dois anos, sempre houve uma expectativa quase messiânica em relação à operação, ainda que esta tenha amainado nos últimos meses. A percepção de que “a Lava Jato pode ajudar a transformar o Brasil em um país sério” caiu de 79% em junho passado para 66% em janeiro. Já a imagem de que “a Lava Jato vai fortalecer a democracia no Brasil” caiu de 87% para 71% no mesmo período. 

Tal abalo na crença do poder transformador da Lava Jato se dá pelo fato de que 80% dos brasileiros acreditam que as grandes lideranças políticas do País estão tentando acabar com a operação.   

Além disso, há exatamente um ano, 85% dos brasileiros acreditavam que “a Lava Jato está mostrando que todos os partidos são corruptos”. Agora, esse número é 64%. O PT é o mais atingido pelas denúncias – 52% dos brasileiros acreditam que “a Lava Jato está mostrando que o PT é mais corrupto que os outros partidos”. Porém, esse quadro já foi mais amargo para o PT: há um ano tal afirmação contava com 66% de concordância e há dois anos com 71%. Os resultados indicam que a percepção da opinião pública em relação às investigações está mais voltada aos personagens nela envolvidos do que às instituições e aos partidos (ainda que estes últimos também tenham sofrido severos abalos pelos escândalos expostos nos últimos anos).

Na ânsia em transformar o Brasil em um país sério e tomados por uma ojeriza generalizada em relação à política, 92% dos brasileiros acreditam que a Lava Jato deveria investigar todos os partidos – um dos indicadores mais unânimes do monitoramento, tendo atingido 97% de concordância em tomadas anteriores. Porém, apenas 50% dos brasileiros entendem que a Lava Jato está de fato investigando todos eles – essa percepção já foi maior, com 74% em junho do ano passado e configura mais um indicativo de percepção de abrandamento da operação, em que pese o forte apoio que ainda recebe da opinião pública. 

De qualquer modo, o julgamento do ex-presidente Lula e sua consequente inelegibilidade parecem não ser o ponto final dessa história, ao menos aos olhos da opinião pública. Para 88% dos brasileiros “a Lava Jato deve continuar as investigações até o fim, pois muita gente ainda precisa ser investigada”. 

A aversão à política transformou a Lava Jato na única via acessível de combate à corrupção para a população. Teve o mérito de expor mazelas e tocar o dedo em inúmeras feridas, mas ao mesmo tempo (e não somente por culpa sua) acarretou em debates tresloucados, insensatos e hostis que pouco contribuem para a solução ou redução do problema.

Em uma sociedade alheia às discussões sobre políticas públicas (sejam elas quais forem), distanciada de mecanismos de controle e vigilância da esfera governamental e com legisladores com enormes telhados de vidro, era questão de tempo para que a operação e o juiz Sérgio Moro fossem catapultados a heróis nacionais pelo sebastianismo nosso de cada dia.

Terceirizamos o combate à corrupção à Lava Jato e nos esquecemos que transformar o Brasil em um país sério depende de todos nós. Todos os dias.  

1: Pesquisa realizada entre os dias  2 e 11 de janeiro de 2018, através de uma amostra nacional representativa de 1.200 entrevistas domiciliares conduzidas por meio de questionário estruturado.

*Danilo Cersosimo é sociólogo pela Universidade de São Paulo e mestre em Estudos Urbanos pela University College London (UCL). Atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.