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Política » O que Lula tem a dizer

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Eliane Cantanhêde

14 Fevereiro 2016 | 05h00

Dilma Rousseff, a cúpula e os militantes do PT e o próprio Instituto Lula esperam ardentemente por explicações claras, honestas e objetivas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o sítio de Atibaia, o tríplex no Guarujá, as operações de compra e venda de medidas provisórias, as viagens em jatos das empreiteiras da Lava Jato, o milionário envolvimento do filho com um lobista com interesse no seu governo. Vão ter de esperar sentados.

O que Lula poderá dizer? Que não sabe, não viu, não ouviu e não tem nada a ver com o sítio para onde levou metade da mudança, 37 caixas de bebidas (haja adega!) e os seguranças da Presidência da República 111 vezes? Nem com o tríplex onde Marisa Letícia supervisionava as obras da cozinha, dos quartos, do elevador interno? Nem com a fortuna que o caçula ganhou para copiar a Wikipédia? Nem com a relação de causa e efeito entre as suas viagens e as vantagens obtidas por empreiteiros agora presos na Lava Jato?

Se Lula mentir para Dilma e o PT, tudo bem, porque eles estão aí para isso mesmo. Se mentir para a Justiça, o Ministério Público e a Polícia Federal, está frito, porque essa gente não brinca em serviço. Mas ele pode falar a verdade? Como explicar o inexplicável?

É um problemaço, porque Dilma precisa saber, o instituto precisa ter o que dizer, o PT precisa ofender procuradores, policiais, juízes e jornalistas com algo mais do que adjetivos indignados, certo? É preciso substância tanto na defesa quanto no ataque. Até agora, necas. Lula reclama que Dilma não o defende com o empenho necessário, mas ela rebate com um argumento irrefutável: se nem ele sabe como se defender, que mágica ela pode fazer?

Na sexta-feira, o conselho do Instituto Lula se reuniu e Lula e Dilma trancaram as portas para mais uma conversa difícil. E a toda hora o PT oferece seus préstimos e generosos espaços para que Lula dê sua versão sobre as suspeitas das instituições brasileiras que desabam sobre ele, a mulher, os filhos. Lula, porém, está recolhido, sem encontrar uma narrativa minimamente convincente, inclusive para o distinto público eleitor e contribuinte.

Sem isso, a Polícia Federal, por exemplo, se prepara para a maior rebordosa. Assim como Lula lançou com inacreditável sucesso o bordão da "herança maldita" e a imagem da "elite branca de olhos azuis" para justificar todos os seus erros, a expectativa é de que eles todos passem a bombardear no imaginário popular que o juiz Sérgio Moro, o MP e a PF são "seletivos" e atuam em conluio com a oposição e com métodos da "Idade Média". É o marketing, ou a contrainformação.

Porém, uma coisa era Lula recém-eleito, surfando na espuma do "Fome Zero", ou Lula do alto de seus 80% de popularidade, com o País amortecido e acreditando em qualquer absurdo que ele dissesse. Outra é Lula agora, respondendo ao MP Federal, ao MP de São Paulo, à PF, a uma opinião pública massacrada pela indústria ladeira abaixo, o comércio fechando cem mil lojas, os trabalhadores perdendo milhões de empregos, o Brasil ameaçado de três anos consecutivos de recessão.

Dizer, Lula pode dizer o que quiser. Criar fantasmas, o PT pode criar à vontade. Tentar jogar a sociedade contra as instituições, pode ser. A questão é se há ambiente para tudo isso prosperar. O que todos esperam é que o maior líder popular da história recente do País tenha algo mais a mostrar do que marketing, jeitinhos, chicana de advogados, adjetivos e a sua velha e boa lábia. Os tempos, definitivamente, são outros.

Temer. Ao se dividir por oportunismo entre o impeachment de Dilma e a cassação da chapa Dilma-Temer, o PSDB jogou o vice-presidente (e o PMDB) no colo de Dilma e do PT. Ele estava se alinhando ao PSDB contra Dilma, mas virou-se para Dilma contra o PSDB.

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