O QI do Ministério de Dilma

Depois de escalar a quatro mãos com o presidente Lula a equipe econômica e o time da casa, a sucessora Dilma Rousseff anunciou na quarta-feira uma batelada de 10 nomes para a Esplanada dos Ministérios, metade dos quais do PMDB.

AE, AE

10 Dezembro 2010 | 23h09

 

Naquele primeiro quinteto, que compreende os titulares da Casa Civil (Antonio Palocci), Fazenda (Guido Mantega), Banco Central (Alexandre Tombini), Planejamento (Miriam Belchior) e Secretaria-Geral da Presidência (Gilberto Carvalho), uns são mais expressivos ou mais experientes, mas nenhum caiu ali de paraquedas. O mesmo se aplica aos novos ministros das Comunicações (Paulo Bernardo, transferido do Planejamento) e da Justiça (o deputado e professor de direito José Eduardo Martins Cardozo).

 

Com exceção do apartidário Tombini, que por sinal trabalhou no primeiro governo Fernando Henrique, os demais fazem parte dos núcleos de elite do PT. Quaisquer que sejam as suas limitações, parecem todos luminares perto de alguns dos futuros colegas recém-anunciados, cuja principal credencial, ou única, é terem um QI - quem indica - adequado à partilha do poder com o principal aliado do governo. Não é propriamente do PMDB em geral que se está falando, mas do presidente do Senado, José Sarney, com quem Lula tem uma dívida que não acaba nunca, tanto que foi herdada e começou a ser honrada por Dilma. Data da primeira eleição de Lula e cresceu exponencialmente com o apoio do oligarca ao presidente acossado pelo mensalão.

 

É o pior dos mundos: já não bastasse o loteamento de parte do Ministério, que prefigura o que se passará com o preenchimento dos cargos chamados de confiança nos escalões inferiores da administração federal, o que certos indicados ignoram sobre as Pastas com que foram premiados lotaria uma estante. Com a sua presença na Esplanada, pode-se dizer, cada um abre uma lacuna. É, notadamente, o caso do apadrinhado de Sarney para o Ministério do Turismo, uma Pasta que mudou de figura com a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Trata-se do político - maranhense, é claro - Pedro Novais, de 79 anos, obscuro integrante do baixo clero da Câmara dos Deputados.

 

Além dele e do senador reeleito Edison Lobão, que continuará no Ministério de Minas e Energia, onde chegou em 2008, contribuirá indiretamente para o patrimônio político de Sarney a ida do senador potiguar Garibaldi Alves para a Previdência Social. Isso porque no próximo ano ele poderia se candidatar à presidência da Casa, função que exerceu em 2008, depois da renúncia do titular Renan Calheiros. Embora o incorrigível Sarney faça expressão corporal de desinteresse por um novo mandato, a remoção de um potencial competidor poderá levá-lo, docemente constrangido, a mudar de ideia. Na Previdência, Garibaldi será o proverbial estranho no ninho.

 

Ele não demonstra ter noção do orçamento da Pasta (cerca de R$ 260 bilhões este ano, 95% destinados a cobrir despesas obrigatórias), muito menos do tamanho do rombo do setor (a caminho de R$ 100 bilhões, somando os déficits do INSS e do regime previdenciário do serviço público). Consumado o convite, Garibaldi só teve a dizer - ou a tartamudear - que a presidente eleita quer manter as reformas de gestão do sistema, para agilizar o pagamento dos benefícios e diminuir as filas no atendimento. "É de esperar", comentou quinta-feira no Estado o jornalista Rui Nogueira, "que ele seja apenas e tão somente um sorridente corta-fitas nas inaugurações de novas delegacias da Previdência."

 

Há quem afirme que o Ministério em formação será transitório - uma espécie de ponte entre as administrações Lula e Dilma. Por isso, ela não estaria criando caso agora com os patrocínios que, em outras circunstâncias, relutaria a acatar. Dilma daria tempo ao tempo antes de trocar os nomes de terceiro nível do Gabinete com que começará a governar. Mas é altamente improvável que, se tiver que continuar pagando as dívidas políticas de Lula, ela consiga do seu maior credor nomes mais aptos dos que os atuais.

 

Velhos coronéis como Sarney não se dão bem com quadros competentes e com luz própria.

Mais conteúdo sobre:
Lula, sucessora

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.