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Petistas só pensam em cargos, afirma Lula

Para ex-presidente, PT está velho, viciado em poder, apegado a empregos e vitórias eleitorais e perdeu capacidade de gerar sonhos

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Ricardo Galhardo e José Roberto Castro,
O Estado de S. Paulo

22 Junho 2015 | 15h28

São Paulo - Menos de dez dias depois de o PT realizar seu 5.º Congresso Nacional, em Salvador, onde decidiu manter o status quo partidário frustrando os setores que esperavam por mudanças radicais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma das mais duras críticas públicas à legenda que ajudou a fundar há 35 anos e o levou ao poder nacional. 

Em palestra ao lado do ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe Gonzalez, Lula disse que o PT está velho, viciado em poder, apegado a cargos, empregos e vitórias eleitorais, perdeu sua capacidade de gerar sonhos e utopias, não mobiliza mais as multidões, a não ser em troca de dinheiro, se afastou perigosamente da juventude e hoje está diante de uma encruzilhada. “Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto”, disse Lula. 

O ex-presidente comparou as origens do PT ao Podemos, movimento nascido nas manifestações de rua que elegeu neste ano as prefeitas de Madri e Barcelona, desbancando o centenário PSOE na preferência do eleitorado de esquerda espanhol. “É mais ou menos que nem o PT quando ganhou Diadema em 1982”, comparou Lula, antes de defender uma “revolução interna” que permita ao PT abrir espaços para a participação da juventude que foi às ruas em 2013.

No Congresso do PT encerrado dia 13, na Bahia, diversos setores encaminharam propostas de mudanças expressivas nas práticas partidárias, entre elas o rompimento da coligação com o PMDB em troca de uma aliança popular com movimentos de rua e a sociedade organizada. No final a corrente integrada por Lula atropelou os descontentes e aprovou um documento final considerado tímido pelos petistas que cobravam mudanças capazes de tirar o PT do “volume morto”, na expressão do próprio ex-presidente.

Nesta segunda-feira, 22, Lula cobrou publicamente uma mudança efetiva criticando a estrutura do partido. “Não sei se o defeito é nosso, se o defeito é do governo. Mas eu acho que o PT perdeu um pouco a utopia. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego em ser eleito. Ninguém hoje trabalha mais de graça”, afirmou.

De acordo com Lula, o PT perdeu a capacidade de mobilização e hoje depende da estrutura dos mandatos parlamentares para levar gente às ruas. “Hoje se os candidatos não liberarem as pessoas dos gabinetes deles ninguém vai porque as pessoas só querem ir ganhando. Isso é um vício de um partido que cresceu e chegou ao poder”, disse.

Segundo o ex-presidente, aos 35 anos o PT já demonstra fadiga e precisa urgentemente de sangue novo. “O PT está velho. Eu que tenho 69 já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que falava em 1980, fico pensando se não está hora de a gente fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna, colocar gente nova, gente que pensa diferente”.

A fala de Lula foi recebida com palmas pela plateia formada por dirigentes petistas, os ministros Juca Ferreira (Cultura) e Renato Janine Ribeiro (Educação) e integrantes de movimentos sociais tradicionais (Movimento dos Sem Terra) e recentes (Levante Popular da Juventude e Fora do Eixo).

Venezuela. Parte da plateia cobrou Gonzalez por sua aproximação com setores da oposição ao governo Nicolás Maduro, na Venezuela. O espanhol causou surpresa ao enfrentar as críticas e separar o governo chavista dos demais regimes de esquerda do continente. “A Venezuela é um modelo diferente. Fico assustado quando dizem que é a mesma coisa. Se não estivermos convictos disso, estamos no caminho errado”, disse ele.

Depois das discordâncias, o espanhol demonstrou solidariedade apontando os riscos de um “comando formado por jornalistas, juízes e procuradores dispostos a tudo que pode acabar com qualquer governo”.

Saddam e Kadafi. Já Lula preferiu destacar as encruzilhadas da democracia mundial seguindo por um caminho tortuoso, no qual chegou a citar o ditador líbio Muamar Kadafi, assassinado em 2011. “A morte do Kadafi é uma daquelas coisas que não têm explicação para a democracia. Porque a Líbia estava quieta, não incomodava ninguém. O Iraque tinha o Saddam Hussein. Por acaso o Saddam alguma vez causou algum problema? Para mim nunca criou problema. Ele estava lá acreditando nas mentiras dele quando os americanos inventaram que era preciso invadir o Iraque”, disse.

Segundo o ex-presidente, o Foro de São Paulo foi criado em 1990 para “educar a esquerda latino-americana a praticar a democracia”. 

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