O Planalto sob novos costumes

Dilma quer ser chamada de presidente; enérgica e detalhista, ela encasqueta com metas, mas não esconde o lado zen: faz meditação, aprecia óperas, devora livros e se diverte com os cachorros

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de São Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h00

Ela quer ser chamada de “presidenta” para destacar que a República vive agora nova temporada de ritos e costumes, sob comando feminino. Primeira mulher eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff é adepta da meditação transcendental, fã de óperas e mentaliza todos os dias, de manhã e à tarde, um punhado de metas a cumprir.

 

A toada, no entanto, não é nada zen: fiel à fama de cobrar tudo pronto para “ontem”, Dilma já planeja as primeiras reuniões no Palácio do Planalto. Convidará governadores para discutir um cardápio de assuntos que vão da reforma tributária ao financiamento da saúde, passando pela segurança pública.

 

“Eu não posso errar”, diz a sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que encerra oito anos de governo com mais de 80% de aprovação. “Mas me aguardem: vou tentar compensar o menor carisma com muito trabalho.”

 

Desde que foi eleita, com 55,7 milhões de votos, a herdeira de Lula adotou a discrição. Nem mesmo a montagem do ministério forneceu pistas suficientes sobre o seu estilo. Disciplinada, a ex-chefe da Casa Civil acatou indicações do presidente para o primeiro escalão, mesmo sabendo que terá de fazer mudanças mais à frente. Em tom de reverência, ela também não quis dividir os holofotes com o padrinho político, que se despedia do Planalto.

 

Nos bastidores, porém, o temperamento forte de Dilma veio à tona. Ela ficou furiosa quando o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), divulgou que Sérgio Côrtes seria ministro da Saúde. Não foi. “Eu não tenho intérprete. Sou eu que anuncio os meus ministros”, esbravejou.

 

Outro episódio que a tirou do sério envolveu a troca de comando no Banco Central. A portas fechadas, Dilma explodiu quando soube que Henrique Meirelles, em conversa com jornalistas, condicionou sua permanência à manutenção da autonomia do banco.

 

Zen invencível. “Brasília é muito carregada e está precisando de muita meditação transcendental”, afirma o deputado eleito João Paulo Lima e Silva (PT-PE). Ex-prefeito de Recife, ele foi o responsável pela indicação da instrutora Adriane Brasileiro, que ministrou aulas de meditação para Dilma, em 2009. “Se a presidenta utilizar a técnica como método de trabalho, seguirá o caminho da invencibilidade”, insiste João Paulo.

 

Até agora, no entanto, a prática não impediu que o estresse batesse à porta de Dilma. Com muitas cotoveladas entre o PT, o PMDB e o PSB, a formação da equipe revelou uma característica pouco conhecida da nova presidente: ela muda de opinião, embora sua fama seja a de dama de ferro implacável.

 

O problema é convencê-la da mudança. Não foram raras as reuniões de trabalho – como ministra das Minas e Energia ou mesmo chefe da Casa Civil – em que ela elevou o tom de voz em muitos decibéis para cobrar exatidão de cifras e porcentuais. “Quando a Dilminha encasqueta com uma meta, sai de baixo”, diz o presidente Lula.

 

Mineira gaúcha. Na descrição dos amigos, a nova ocupante do Planalto encarna a paixão gaúcha pelo debate inflamado misturada ao estilo mineiro da conciliação. Não sem motivo: nascida em Belo Horizonte, Dilma construiu sua carreira de economista em Porto Alegre, para onde se mudou após cumprir pena de quase três anos no Presídio Tiradentes, em São Paulo, na época da ditadura.

 

De qualquer forma, a mineirice sempre entra em cena quando, desconfiada, ela testa sem piedade as convicções do interlocutor. Ao fim do “inquérito” pergunta, à queima-roupa: “Você tem certeza disso?” A interrogação, famosa no Planalto, fez tremer muito ministro nas discussões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

 

“Antes de cada projeto, ela reúne especialistas, faz várias consultas e cerca-se de opiniões, às vezes até divergentes. Mas, se perceber que alguém quer enrolá-la, fica muito brava”, atesta Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula por oito anos e novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

 

No início de 2009, o vice-presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), Jorge Hereda, recorreu a uma estratégia inusitada para fazer Dilma mudar de ideia. Depois de inúmeras reuniões para definir o formato do programa Minha Casa, Minha Vida – e com os benditos números na ponta da língua –, ele chegou a ajoelhar-se no chão para pedir que a então chefe da Casa Civil deixasse um pouco de dinheiro para outros projetos.

 

“Pelo amor de Deus!”, implorou Hereda, com as mãos unidas para o alto. Surpresa, Dilma não conteve o riso. “Levanta daí, meu filho! Assim você está apelando. Só falta agora rodar a baiana”, reagiu, bem-humorada. A ideia inicial da ministra era direcionar todos os recursos destinados ao setor para o novo plano habitacional, bandeira de sua campanha. Diante da atuação dramática de Hereda, Dilma cedeu.

 

Disposta a vestir o figurino do pós-Lula, ela começou a mudar o seletor de canal técnico para sintonizar a política em meados de 2008, quando Lula passou a levá-la em todos os palanques. Meses depois, ganhou de presente o livro The Political Brain (“O Cérebro Político”, editora Unianchieta), do neurocientista americano Drew Westen.

 

Ancorado em estudos sobre o comportamento do eleitor, o livro mostra que a emoção conta mais do que a razão na hora do voto. Não sem uma ponta de ironia, petistas juram que Dilma assimilou a mensagem antes de Westen esmiuçar sua tese em palestra para tucanos, há quase dois anos, deixando José Serra (PSDB) “embasbacado”.

 

Literata. Na prática, ela lê tudo o que cai em suas mãos: de poesias de Adélia Prado a Fernando Pessoa; de romances de Machado de Assis a Honoré de Balzac. Agora, por exemplo, está nas últimas páginas de “Game Change”, de Mark Helperin e John Heilemann, que escancara o jogo de poder, traição e intrigas na campanha de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, em 2008.

 

“Uma coisa que me impressiona muito é que a Dilma cita trechos de obras literárias de cabeça”, conta o novo ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo. “Eu também sou rato de biblioteca, mas, como ela, nunca vi igual.”

 

Foi o advogado Pedro Rousseff, um búlgaro naturalizado brasileiro, quem transmitiu à filha o hábito da leitura e o gosto pela literatura grega. Ela tinha aulas de francês no recatado colégio de freiras Nossa Senhora de Sion, em Belo Horizonte, mas, na adolescência, foi transferida para o Estadual Central, de enorme efervescência política.

 

“A gente ia a passeatas de protesto e lia muito (Régis) Debray e Che Guevara. Discutíamos a exploração dos trabalhadores e a revolução”, lembra o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT), agora ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do novo governo.

 

Prisão. Quando chegou ao Presídio Tiradentes, em 1970, após 22 dias seguidos de tortura nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Dilma chamou a atenção pela capacidade de “mergulhar” em mundos diferentes, muito distantes dali.

 

“Ela tinha 22 anos, usava lentes grossas, estudava macroeconomia e lia sem parar. Chegar no Tiradentes era um alívio depois do inferno. Saíamos das garras da polícia política e íamos para as mãos da Justiça Militar”, conta a jornalista Rose Nogueira, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP, que conviveu com Dilma no presídio.

 

Para arrumar as celas com colchões de palha, fazer a limpeza do piso de madeira imunda e preparar a “gororoba” no velho fogareiro de uma boca, as presas se revezavam.

 

“A equipe da Dilma era conhecida por não saber cozinhar. Uma vez, fizeram uma sopa de quiabo e virou uma gosma”, recorda Rose.

 

A militante que atuou na Política Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina) e Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares) tinha uma voz de “fazer chover”, mas, mesmo assim, cantava “Chico Mineiro”. E ouvia discos de tango e jazz da professora Maria do Carmo Campello de Souza, a Carmute. Caixotes de maçã, perto de uma pequena vitrola, faziam as vezes de caixas de som.

 

“Vivíamos um momento histórico e lutávamos contra a ditadura. Se o que fizemos foi certo ou errado é outra discussão”, diz o ex-marido e advogado Carlos Araújo. Companheiro de Dilma em organizações de extrema-esquerda, que pregavam a luta armada, Araújo é pai de Paula e avô de Gabriel, os dois xodós da presidente.

 

Ópera e cachorros. Daquela época, ela guarda a paixão por Chico Buarque, pelos Beatles e por filmes “subversivos” de Glauber Rocha. O gosto pelas óperas veio bem antes. A mulher que se irrita com miudezas, como lápis desapontado, mantém a calma nas crises e relaxa ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, ou de Madame Butterfly, de Puccini. Sempre amou cachorros e já teve muitos vira-latas. Sua distração é caminhar com o labrador Nego, herdado do ex-ministro José Dirceu, e com a dachshund Fafá, achada na rua.

 

Curiosa, Dilma também é obcecada por novas tecnologias. Suas exposições em Power Point – programa de computador que organiza dados – deram o que falar na Casa Civil, de tão detalhadas e sonolentas. Tudo mudou, porém, quando ela virou candidata. As palavras ganharam o dom de expressar sentimentos. O verbo “cuidar” foi incorporado ao vocabulário, ao lado de substantivos como “família”, “lar” e “aconchego”.

 

Nova ordem. Seis quilos mais magra após dieta que cortou carboidratos, Dilma terá quatro ajudantes de ordens no Planalto. Pela primeira vez na República, todas são mulheres. Na seleção, o conhecimento em informática pesou. Além de não se separar de seu iPad, que acessa a todo minuto para obter informações, ela tem uma galeria virtual de obras de arte e adora rever filmes no computador, como “Il Gattopardo”, de Lucchino Visconti.

 

Perfeccionista, Dilma já revisou incontáveis vezes o discurso de posse. Trocou palavras, mudou parágrafos de lugar e, mais uma vez, rabiscou “presidenta”. Na ditadura, ela era Estela, Wanda, Marina, Luiza, Maria e Lúcia, codinomes para fugir da repressão. Hoje, aos 63 anos, subirá a rampa do Palácio do Planalto com sua verdadeira identidade: Dilma Vana Rousseff.

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