O País no tempo do Contestado

A República, refém do regime agrário e suas instituições corruptas, não conseguia evitar rebeliões causadas por desarranjos políticos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 18h00

O Brasil de 1912 ainda assistia a lutas de sangue provocadas pela proclamação da República, duas décadas antes. Representantes do setor agrário de São Paulo e Minas Gerais e militares eram os protagonistas de um regime com instituições tomadas pela corrupção e que não conseguiam evitar rebeliões nas cidades e no interior, causadas por um desarranjo político, com a ascensão de novos coronéis e o fim do poder de apoios da monarquia.

 

O presidente Hermes da Fonseca, um militar de carreira, mantinha a política do tio, Deodoro, proclamador da República, e de Floriano Peixoto de aniquilar defensores da monarquia. A presença de federalistas, adversários de Floriano, no movimento do Contestado, e os "vivas" dados pelos revoltosos a uma "monarquia celeste" eram pretextos usados pelo governo para esquecer o desastre de Canudos, de 1897, e enviar o Exército para mais uma batalha nos sertões, desta vez em Santa Catarina e Paraná.

Nos bastidores, o governo era pressionado por lobistas contratados pela madeireira norte-americana Lumber, companhia de Percival Farquhar, construtor da Ferrovia São Paulo - Rio Grande do Sul. Políticos catarinenses e paranaenses, alguns que atuavam como advogados da empresa, também pressionavam Hermes a mandar tropas federais para combater os caboclos.

 

Naquele momento, o governo enfrentava o descontentamento das ruas pelo aumento dos preços e pela repressão à revolta da Chibata, um movimento de marinheiros contra os maus-tratos, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910. Não era um pedido fácil de atender. Hermes dispunha de um Exército marcado por disputas internas, que se dividia até mesmo na forma para acabar com os movimentos populares.

 

O presidente terminou o mandato em novembro de 1914, quando os líderes caboclos tinham o controle de uma área extensa na região disputada desde o início do século por Santa Catarina e Paraná, rica em madeira. O sobrinho de Deodoro, no entanto, deixou para o sucessor, Venceslau Brás, um plano pronto para sufocar a revolta cabocla.

 

O que o Contestado aproveitou de guerras anteriores:

 

Revolução Farroupilha (1835-1845) - O movimento caboclo tinha entre as suas causas reivindicações ainda do tempo dos farrapos, rebeldes que combateram tropas imperiais no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, como as queixas aos impostos e à centralização do poder.

 

Revolução Federalista (1893-1895) - Os líderes caboclos aproveitaram soldados e oficiais e o velho protesto contra a centralização de poder da época dos federalistas. Por sua vez, o Exército recorria a práticas de fuzilamento, degola e mutilações de orelhas e mãos, como na repressão aos adversários do presidente Floriano Peixoto. Essas acusações também foram feitas contra lideranças caboclas.

 

Revolta dos Muckers (1874), Guerra do Canudinho de Lages (1897) e Guerra do Pinheirinho (1902) - A religiosidade, com suas rezas, seus monges messiânicos e suas adorações a santos, uma marca do movimento no Contestado, já ocorrera durante movimentos combatidos por militares em Sapiranga e Encantado (RS) e em Lages(SC).

 

O pinheiro do corneteiro. Uma araucária que dizem ter sido plantada nos tempos da Guerra dos Farrapos (1835-1845) está isolada numa plantação de trigo no interior do município de Curitibanos, em Santa Catarina. Os mais velhos se referem a ela como o "pinheiro do corneteiro". A tradição oral afirma que foi ali, no pé da araucária, que o caudilho "maragato" Gumercindo Saraiva fez acampamento durante a Revolução Federalista, em 1894, e esperou reforços de um coronel da região.

 

Durante a pernoite dos rebeldes "maragatos", o corneteiro da tropa teve morte súbita e foi enterrado próximo à araucária. Em sua marcha contra o governo, Gumercindo Saraiva, um caudilho uruguaio, foi atacado por tropas de Moreira César e Artur Oscar, oficiais cuja truculência no Paraná e Santa Catarina os credenciariam para participar da repressão a Canudos, em 1897. "Pica-paus" (governistas) e "maragatos" deixaram um rastro de sangue e violência extrema. Eles reprisaram as mais bárbaras batalhas dos pampas, com práticas de violações de direitos de prisioneiros. Os combatentes de lenços vermelhos ("maragatos") e de lenços brancos ("pica-paus") foram classificados pelos historiadores como "carniceiros". O próprio Saraiva, depois de preso, teria sido decapitado.

 

Mais tarde, durante o conflito do Contestado, as sombras do pinheiro serviram de abrigo para os homens do Exército que chegavam estropiados do quartel de Canoinhas, com o intuito de alcançar o reduto rebelde de Taquaruçu. O terreno onde está o pinheiro também foi usado como referência pelos "bombeiros" - os homens de espionagem do movimento rebelde - no trabalho de rastrear os militares.

 

A alguns quilômetros do pinheiro, num lugar conhecido como Capão da Mortandade, exatamente na fazenda Forquilha, tropas do Império prenderam em 12 de janeiro de 1840 a farroupilha Anita Garibaldi (1821-1849), companheira de Giuseppe Garibaldi. O combate travado, naquele dia, entre farrapos e imperiais deixou dezenas de mortos de ambos os lados. Anita teria escapado por uma distração dos imperiais.

Mais conteúdo sobre:
Contestado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.