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O novo sempre vem

Começo da noite de quinta-feira na rua que dá acesso às estações mais movimentadas da cidade. Inconformado com a nova concorrência, que ele e seus colegas de praça reputam desleal e perniciosa, Antonio de Luca resolve tomar as rédeas da situação. Precipita-se em direção ao rival Francisco Cunha, contratado na véspera para garantir a segurança dos automóveis da companhia que está revolucionando o transporte particular na cidade.

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José Roberto de Toledo

13 Agosto 2015 | 05h00

A contratação de um segurança fizera-se necessária porque dois dias antes o gerente da nova empresa, Frederico Zanardini, havia sido agredido pelos colegas de Luca. Desde então, o clima na região tornara-se ainda mais tenso, com acirrada disputa pelos passageiros que saíam da estação carregados de malas e em busca de um meio rápido para chegarem a seu destino.

Ao aproximar-se do homem que, na sua cabeça, personifica a ameaça ao seu ganha-pão, Luca diz poucas palavras. Saca logo o revólver e dispara, a queima-roupa. A bala entra pelo peito de Cunha, que vai ao chão. Há grande correria, e o atirador aproveita para fugir. Não foi mais visto. A vítima é levada a uma farmácia e, após receber os primeiros socorros, encaminhada em estado grave ao Hospital de Misericórdia. Pano rápido.

A cena ocorreu há 104 anos, e está registrada em detalhes na página 6 da edição de 25 de agosto de 1911 do Estado. Passou-se em São Paulo, mas poderia ter sido em Buenos Aires ou em Roma, onde o problema de fundo se repetia, com a mesma violência. Luca e milhares de cocheiros mundo afora estavam inconformados com o aparecimento dos “taxímetros”, como começavam a ser conhecidos os automóveis de aluguel que rapidamente desbancaram os coches.

Qualquer semelhança com o noticiário atual não é coincidência. A empresa disruptiva cujos funcionários foram agredidos era a Companhia Nacional de Auto-Transporte, que concentrara seus 21 automóveis na Rua Mauá, junto à Estação da Luz. Não era a única, porém, no negócio de substituir cavalos por Horse Power. O Uber da época era a Companhia Auto-Taxímetro Paulista, com invejáveis 137 carros tinindo. O novo vinha de táxi.

Por esses anos, articulista do Estado escreveu que era tempo de “suprimirmos por completo o burro e o cavalo” – sem ironia. Ele reivindicava do governo “prêmio a cocheiros e carroceiros que substituírem seus veículos por automóveis”. Em 31 de outubro de 1912, reportagem do Estado comemorava que a cidade superara na véspera a incrível marca de mil automóveis. São Paulo não podia parar. Não parou e, um século depois, são 5,7 milhões. Hoje, os 1.004 carros de então não lotam a garagem de um shopping center.

As mudanças foram rápidas e dolorosas. Na década de 1910 houve 536 menções à palavra “cocheiro” nas páginas do Estado. No decênio seguinte, 50 – até desaparecerem. Ao mesmo tempo, “chauffeur” foi de zero às centenas de citações entre 1905 e 1920. Profissões sumiam ou apareciam, e as palavras se adaptavam. Auto-taxímetro foi abreviado para taxímetro, que virou táxi. Agora, parece estar mudando de novo.

Pesquisa inédita feita pelo Ideia Inteligência em São Paulo neste mês mostra que 60% dos paulistanos já ouviram falar do Uber. Mais surpreendente, 9 de 10 dos 60% sabem que é um aplicativo que oferece serviço semelhante ao táxi tradicional. A novidade, porém, divide os paulistanos: 56% acham que o Uber melhora a vida das pessoas na cidade, mas 52% concordam que “transportar passageiros de forma remunerada sem ser táxi é concorrência desleal”. Os paulistanos só concordam em uma coisa: 77% apostam que mais tecnologia vai melhorar a mobilidade urbana.

E como tanta gente ficou sabendo do Uber? Boca a boca, explica Mauricio Moura, diretor-geral do Ideia. Inclusive pela antipropaganda dos taxistas junto a seus passageiros. Como diria um político simpático à categoria, “falem mal, mas falem de mim”.

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