Frederick M. Brown/Getty Images
Frederick M. Brown/Getty Images

‘O mecanismo da corrupção moldou a política’, diz diretor de 'Tropa de Elite'

Ao ‘Estado’, José Padilha critica decisão que soltou deputados e afirma que não tem ideologia

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 03h00

Em Tropa de Elite 2, os políticos foram apresentados como os grandes inimigos da população, os verdadeiros responsáveis pela corrupção e violência do País. Os últimos acontecimentos no Rio, como a decisão da Assembleia de soltar o presidente da Casa, Jorge Picciani (PMDB), e outros dois deputados acusados de corrupção, parecem confirmar a visão quase apocalíptica do diretor José Padilha.

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Nessa entrevista, concedida por e-mail, ele avisa que não existe nenhum capitão Nascimento (chefe do Bope interpretado por Wagner Moura em Tropa de Elite 1 e 2) para resolver as mazelas cariocas. Confira os principais trechos da entrevista:

Com o que tem acontecido no Rio de Janeiro, a pergunta é: você tem uma bola de cristal?

É claro que o principal problema do País é o “mecanismo”, a máquina de corrupção que dominou e moldou nossa política (e o Estado) em todos os níveis da Federação, no Legislativo e no Executivo. Isto deveria ser óbvio para todos muito antes do Tropa de Elite 2. No entanto, a grande maioria dos formadores de opinião do país tem posições ideológicas marcantes. O pessoal da esquerda sempre fez malabarismos intelectuais absurdos para justificar a corrupção de seus líderes, evidente desde as prefeituras do PT. E o pessoal da direita... bom, este pessoal faz isto desde sempre… Logo, os dois grupos demoraram muito para perceber algo essencial: o mecanismo não tem ideologia. Usa a ideologia para defender seus pares, enquanto faz o trabalho sujo. Eu tenho bola de cristal? Certamente que não. Apenas não tenho ideologia.

Te assusta as similaridades do que se viu em Tropa de Elite 2 e a política no Rio de Janeiro?

Me assusta muito mais o comportamento dos juízes do STF, que têm acesso aos processos, sabem de tudo em detalhe, e mesmo assim deram às assembleias legislativas a prerrogativa de decidir sobre a aplicação de penas a deputados e senadores condenados por corrupção. Isso significa que, muito provavelmente, a maioria do STF faz parte do mecanismo. Significa que, muito provavelmente, boa parte dos juízes do STF está diretamente envolvida em corrupção. E se este for o caso (a minha “bola de cristal” acha muito provável que seja), o que vai acontecer com o Brasil no curto e no médio prazo, depois que a população entender que a Justiça decidiu que os políticos podem roubar sem serem punidos?

Na sua opinião, qual é a origem do desastre político carioca?

Houve no Rio uma exacerbação do mecanismo. Ocorreu porque um político ainda mais sociopata do que a maioria de nossos políticos (Sérgio Cabral) foi ungido pela mídia local como o salvador da pátria, em função do projeto das UPPs, que claramente não iria funcionar nos moldes em que foi concebido. O que aconteceu no Rio não teria acontecido em tamanho grau se a imprensa local tivesse mantido uma atitude crítica em relação ao poder público durante os governos de Cabral. 

Falta oposição no Rio de Janeiro? Faltam embate e debate real na política do Estado? 

Grandes consensos e excesso de ideologia denotam falta de inteligência. O Rio de Janeiro sofre dos dois males. 

Picciani, Cabral e cia. rendem bons personagem para o cinema ou a ficção não dá conta?

Espero que dê conta, porque estou trabalhando nisso!

Só um capitão Nascimento para pôr ordem nessa situação? 

O capitão Nascimento não é parte da solução, é parte do problema.

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