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O dedo a dedo eleitoral

Na política, o boca a boca está perdendo espaço para o dedo a dedo. Ao decidir o voto, pesa cada vez menos o bate-papo a viva-voz e, cada vez mais, chats digitados no celular. Segundo o Ibope, as conversas com amigos e parentes caíram à metade na hora de o eleitor escolher candidato, enquanto as interações digitais foram multiplicadas por seis. Essa revolução de comportamento terá impacto determinante nas eleições deste ano.

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José Roberto de Toledo

14 Janeiro 2016 | 03h00

Em 2008, apenas duas eleições municipais atrás, 47% do eleitorado dizia ao instituto que o diálogo cara a cara com as pessoas do seu círculo familiar, de amizades e profissional era muito importante para coletar informações e alimentar seu processo decisório sobre em quem votar. Em dezembro de 2015, o Ibope descobriu que essa taxa caiu para apenas 22%.

Em grande parte, essa perda de importância das conversas presenciais foi compensada pelo crescimento explosivo das consultas a sites de internet: subiu de 3% para 14% a fatia de brasileiros que cita esse meio de informação eleitoral. Ao mesmo tempo, as redes sociais (Facebook, WhatsApp e Twitter), ignoradas em 2008, são lembradas hoje por 5%. Somando-se sites e redes, os meios digitais influenciam 19% do eleitorado.

Ficam tecnicamente empatados com a propaganda eleitoral oficial (19% de citações como fonte de informação), com as conversas com amigos e parentes (22%) e com o rádio (18%). Só perdem para a TV, cujo prestígio segue aparentemente inabalado. Era citada por 48% em 2008, foi lembrada por 51% em 2015. Os meios impressos (jornais e revistas) oscilaram de 12% para 10%.

Porém, o poder televisivo tem limitações de tempo e no espaço. Nas cidades com até 50 mil habitantes, a TV é citada como principal fonte de informação por 41% dos eleitores, contra 60% nas com mais de 500 mil. A razão é simples: muitos municípios não têm telejornal local. Nas pequenas cidades, o rádio cresce em importância (23%, contra 16% nas grandes) e o boca a boca ainda é o segundo meio mais influente: 28%.

Além disso, o candidato que espera a TV entrar em campo para pedir votos sai em desvantagem. Como lembra Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, serão 45 dias de campanha autorizada na TV e, desses, só 35 com horário eleitoral – o período mais curto em décadas. Para dificultar ainda mais a vida dos candidatos e marqueteiros, a Olimpíada no Rio de Janeiro ocupará o noticiário e a atenção do público até meio de agosto.

Uma coisa é o que o eleitor acha que vai influenciar sua tomada de decisão eleitoral; outra, é o que vai influir de fato. A campanha na TV é concentrada, via debates e spots publicitários. A comunicação digital é permanente, sub-reptícia e muito mais difícil de controlar e fiscalizar. Faz parte do dia a dia.

Marcia cita outra pesquisa, internacional, feita pelo Ibope e pela rede de institutos Win, para reforçar a importância dos meios digitais na formação da opinião pública no Brasil. Nada menos do que 87% dos internautas brasileiros dizem que usaram Facebook, Twitter ou WhatsApp nos últimos 12 meses para ler sobre temas políticos ou sociais. É a maior taxa das Américas.

Além da cultura digital cada vez mais arraigada e do bombardeio político nas redes sociais, há outro fator determinante para a campanha dedo a dedo ganhar espaço na eleição de 2016: o custo. É incomparavelmente mais barato disparar mensagens de celular do que fazer propaganda em qualquer outro meio. Cada disparo para 1 milhão de celulares sai por US$ 10 mil. Como são feitos desde a China, são duros de rastrear e somem da contabilidade oficial.

Por isso, se você receber uma chamada no celular às 3 da manhã do dia da eleição, com uma voz gravada pedindo voto para um candidato, não se assuste. Provavelmente foi o rival que pagou.

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