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Política

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O cerco se fecha

A Polícia Federal chegou a um ponto sem volta na investigação e na divulgação sobre o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e a expectativa na corporação, assim como no Planalto e no PT, é de que o processo caminhe cada vez mais rapidamente, com novidades explosivas ainda neste semestre.

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Eliane Cantanhêde

29 Janeiro 2016 | 03h00

As operações Lava Jato, Zelotes e Acrônimo são como conjuntos da matemática, com vários pontos de intersecção de nomes, práticas e desvios. O mesmo suspeito aparece numa, depois na outra e enfim entra de fininho na terceira. Mas o fator que gera maior tensão na área governista e maior expectativa na opinião pública é quanto a Lula.

Quando se fala em Lula, porém, não se fala só no seu envolvimento na Zelotes (venda de medidas provisórias para favorecer o setor automotivo), no petrolão (no qual os partidos e personagens eram centrais em seu governo), nem nas relações perigosas com empreiteiras (viagens, negócios, agora o tríplex no Guarujá).

Fala-se, também, do seu filho caçula, Luis Cláudio, da chefe da Casa Civil do seu governo, Erenice Guerra, de mais um tesoureiro do PT, João Vaccari Neto... E tudo se desenrola como um imenso novelo sombrio de ataque à Petrobrás e aos limites entre o público e o privado.

Assim como o Fiat Elba e a cascata na Casa da Dinda foram pequenas coisas com grandes significados, o tríplex de Lula e Marisa Letícia no Guarujá é apenas uma parte concreta dos escândalos, mas tem efeitos devastadores para Lula e o projeto de eternização do PT no poder.

São muitas as diferenças entre Collor e Lula, a começar da biografia pessoal, da carreira política e dos partidos de ambos, mas a que interessa do ponto de vista prático neste momento é que Collor era presidente e foi derrubado pelo impeachment, mas Lula é ex-presidente, não pode ser cassado. Logo, o efeito sobre Collor foi imediato e focado, mas sobre Lula é em seu legado, seu partido e sua sucessora. O tríplex do Guarujá desaba sobre o futuro de Lula e do PT.

Não é nada trivial ver um ex-presidente depondo horas e horas à PF, e com uma curiosidade. Mesmo os mais experientes delegados ficam perplexos com a inteligência e a capacidade retórica de Lula ao depor. Um policial brinca: “Até eu acabo ficando na dúvida...”.

O mesmo eles não dizem do depoimento do filho de Lula na Zelotes, que, mesmo amparado por quatro advogados, não disse coisa com coisa e mais se comprometeu do que se ajudou. Numa rodinha de policiais, um deles espantou-se: “Isso não é um depoimento, é uma delação premiada!”.

Enquanto a situação de Lula vai se tornando crítica, Dilma Rousseff dá passos firmes para se descolar da desgraça do mentor. O mais forte deles foi ontem, com a reunião dos peso-pesados das finanças, da indústria, do comércio, da chamada sociedade civil no antes desprezado “Conselhão”.

O mais importante foi a foto, que tem o forte significado político de mostrar que Dilma está viva e tem capacidade de reação. A esperança de que a injeção de R$ 83 bilhões salve o País, no entanto, não é lá essas coisas. Até porque algumas das mais importantes medidas anunciadas dependem do... Congresso. Aí, o buraco é mais embaixo.

Aliás, no mesmo dia em que Dilma ressuscitou o Conselhão, com os principais setores do País, a realidade mostrou que, com toda a crise, recessão de 3,5%, indústria ladeira abaixo e 1,5 milhão de empregos formais ceifados, o Bradesco lucrou R$ 17,2 bilhões em 2015, 13,9% a mais que em 2014. O segundo recorde da história. 

Dilma defende a igualdade, mas na economia nada muda: há uns mais iguais do que outros. O que muda é que juízes, procuradores e a Polícia Federal começam, sim, a dar sinais de que a justiça tem de ser igual para todos, até para ex-presidentes da República. “Doa a quem doer”, como já disse o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, ao Estado.

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