JAMIL CHADE|ESTADÃO
JAMIL CHADE|ESTADÃO

'O Calvário', o filme escolhido por Pizzolato para assistir no avião

Processo de extradição custou mais de R$ 240 mil

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2015 | 10h51

Atualizado às 11h09

O Calvário. Esse é o filme que Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, escolheu para assistir no voo entre Milão e São Paulo. O Estado foi o único jornal brasileiro a acompanhar a viagem do condenado no caso do mensalão. Durante o voo, Pizzolato leu a Bíblia, comeu pouco e falou ainda menos. Nas mais de onze horas de viagem, o brasileiro quase não dormiu e passou uma parte grande da viagem olhando pela janela. 

Mas foi a escolha do filme que chamou a atenção, até mesmo dos delegados da Polícia Federal que o acompanharam. O drama relata como um padre com forte sentido de honestidade temia por "forças misteriosas" que estavam ameaçando sua comunidade. 

O drama irlandês foi escrito e produzido por John Michael McDonagh e traz ainda como estrelas Brendan Gleeson e Chris O'Dowd.  

Religioso, Pizzolato interrompia o filme para ler passagens da Bíblia. O brasileiro, em diversas ocasiões na Itália, declarou que sua "força" para suportar sua fuga e agora a extradição vinha da religião. "Deus foi meu advogado", declarou Pizzolato em um encontro em sua igreja em Módena, no ano passado.

Pizzolato, apesar de estar retornando ao Brasil depois de mais de dois anos de fuga, não estava interessados nos temas da política nacional. Recusou os jornais que lhe foram oferecidos e, nas poucas vezes que conversou com os delegados, não tocou no assunto da crise política no Brasil. 

A operação minuciosamente preparada teve um custo elevado ao Brasil. Apenas o Ministério Público gastou R$ 170 mil com advogados e com o processo que levou 20 meses. 

Na Itália, quem representou o Brasil no caso foi o escritório de Miqueli Gentiloni. Para cada etapa do processo, seu preço era de 25 mil euros. 

Mas ainda falta estimar os valores gastos pela AGU e pela própria Polícia Federal, que só em passagens gastou mais de R$ 70 mil nas duas viagens que fez até a Itália e que não resultou na extradição do brasileiro.  

O voo. Ele saiu do Brasil com um passaporte falso, uma identidade roubada e, acima de tudo, sem ser notado ao fazer um trajeto por vários países para chegar até seu suposto refúgio, na Itália. Mas o passageiro do lugar 40A do voo entre Milão e São Paulo retornou nesta manhã ao País reconhecido por praticamente todos os demais passageiros do avião, sob escolta policial e como símbolo de uma fuga espetacular que acabou fracassando. Vaiado ao desembarcar, Pizzolato chegou em Guarulhos. 

Às 11 horas e 30 minutos de voo entre a Itália e o Brasil foram o desfecho de uma novela que começou com a certeza de que a Itália jamais extraditaria um de seus cidadãos. Mas a cooperação bilateral e a disposição de Roma em mostrar que não iria acolher condenados abriu um novo capítulo entre os dois países.

Pizzolato foi o primeiro a entrar no avião, na noite dessa quinta-feira, 22, sendo locado no último lugar, ao lado do banheiro. Ao seu lado, um agente da PF. Nos dois bancos da frente, mais um agente e uma médica. Do outro lado do corredor, mais um delegado.  

Ele não precisou fazer o check-in e nem passou pelo controle de passaportes. Sua mala foi despachada junto com a dos delegados que conduziram a operação.

A blindagem foi organizada para que nenhuma situação de crise pudesse ser gerada. No avião, dez assentos tiveram suas poltronas retiradas ao lado do brasileiro, criando uma espécie de escudo contra qualquer um que tentasse sentar perto. 

A justificativa para afastar a imprensa era de que a situação poderia gerar riscos para a segurança de um voo. 

Pizzolato também adotou sua própria maneira de ser evitado. Ao se instalar em seu lugar, rapidamente colocou um fone de ouvido na cabeça e tentava se esconder atrás da poltrona. Durante a viagem, ainda girava o rosto para a janela para não ser fotografado.

Enquanto os demais passageiros entravam, os comentários eram direcionados ao condenado. "Onde ele está? Ele entrou mesmo?", dizia uma senhora, enquanto as aeromoças tentavam fazer as pessoas se sentarem para o avião decolar. Alguns estrangeiros perguntavam o motivo de tanto interesse. Quem não sabia da coincidência de viajar ao lado de um "mensaleiro" se surpreendia. "Pizzolato está aqui?", comentou uma mulher. Antes do embarque, alguns passageiros se mostraram irritados com a presença do ex-diretor do BB e ensaiavam um protesto.

Mas, dentro do avião, o clima foi de tranquilidade. Uma das poucas reações foi uma salva de aplausos aos agentes da PF que, durante o voo, ainda eram cumprimentados pelos passageiros.  

Pizzolato aceitou o jantar que lhe foi oferecido. Optou por frango com arroz. Mas deixou metade da comida no prato. O brasileiro evitou bebidas alcoólicas e ficou apenas com um suco de maçã.

Conversou muito pouco com o agente que lhe acompanhava e não tomou nenhum remédio para ajudar a dormir. Consultava revistas que foram oferecidas e, quase seis horas depois da decolagem e, em pleno mar Atlântico, Pizzolato continuava acordado. Olhava pela janela com insistência, acendia e apagava sua luz individual, enquanto o restante do avião permanecia em um silêncio e escuro quase total. 

Pizzolato não usou algemas durante o voo e nem no aeroporto de Milão quando foi transferido da custódia dos italianos ao Brasil. 

A cada tentativa da reportagem do Estado em se aproximar, Pizzolato olhava de forma desconfiada. Ele não abria a boca enquanto a imprensa se aproximava. Quem o sempre questionava era a médica, levada do Brasil para garantir a "integridade" do prisioneiro. Ainda em Milão, um exame médico foi realizado e se constatou que Pizzolato não sofria de qualquer problema. 

Foi justamente a médica que o acompanhava que o ajudou a encontrar uma posição para dormir, colocando um cobertor dobrado entre ele e a parede do avião. Foi apenas sete horas depois da decolagem que o prisioneiro finalmente pegou no sono.

Bíblia. Faltando duas horas para o pouso, Pizzolato acordaria para o café da manhã e ele receberia uma vez mais a atenção médica. Ele teve sua pressão colhida e a profissional levada pela PF o questionou como ele se sentia. 

Evitando se levantar e até mesmo ir ao banheiro, o brasileiro passou as últimas horas do voo lendo uma Bíblia, visivelmente repleta de marcações. Na prisão, ele acabou se aproximando de um padre que o visitava e, em um encontro numa igreja, chegou a dizer que Deus havia sido seu advogado.

Mais gordo que há 20 meses, Pizzolato não escondia o abatimento. Mesmo assim, manteve a calma. Naiá, uma das comissárias de bordo, dizia estar "surpreendida" com a tranquilidade do brasileiro. "Eu também fiz o voo de Cacciola e ali foi bem diferente", contou. 

Num gesto que chegou a comover a médica, Pizzolato fez com folhas de guardanapos uma flor e a entregou antes do pouso. 

Pizzolato, ainda em um esquema especial, foi retirado do avião pela porta traseira. Assim, não cruzaria com os demais passageiros e evitaria as alas públicas do aeroporto. 

Pizzolato foi encaminhado a Brasília, onde passou pelo Insituto Médico Legal (IML) para realizar exame de corpo delito e depois seguiu para o Complexo Penitenciária da Papuda. 

Essa era a terceira vez que a PF se organiza para buscar o brasileiro. Pizzolato deveria ter sido extraditado no dia 7 de outubro. Mas, pressionado politicamente pela base de seu partido, o ministro da Justiça italiano, Andrea Orlando, adiou a volta do mensaleiro ao País. A mudança na programação ocorreu no dia 6, na mesma data que a Corte Europeia de Direitos Humanos na França negou o último recurso apresentado pela defesa de Pizzolato. 

Desde fevereiro de 2014, quando foi preso, Pizzolato se encontrava na penitenciária Sant'Anna, de Modena, aguardando uma definição sobre seu caso. Neste período, oito decisões judiciais e políticas foram tomadas. 

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