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Política

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O Brasil na contramão

Desde o início da era petista, em 2003, nunca tantos brasileiros avaliaram que o Brasil está indo na contramão quanto agora. Recordes 82% acham que o País está no rumo errado, segundo pesquisa inédita do Ibope, exclusiva para a coluna. Só 14% acham que o Brasil vai na direção certa; 4% não sabem dizer. É como se o País seguisse pelo acostamento da mão oposta.

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JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

25 Janeiro 2016 | 03h10

A contrariedade com o rumo nacional é maior entre os jovens (88%), nas grandes cidades (87%), no Sudeste (87%) e entre quem ganha mais (88%). Mas também é alta em redutos governistas: 77% no Nordeste e entre os mais pobres. Pior: pela primeira vez, as opiniões dos brasileiros sobre os rumos do País coincidem com o que eles leem e ouvem falar. A percepção pessoal costuma ser bem mais otimista do que a coletiva. Não mais: 82% versus 85%.

O GPS nacional parece desregulado aos olhos da maioria pelo menos desde julho de 2014, quando 53% disseram que o rumo do País estava errado. Isso não impediu a reeleição de Dilma Rousseff. A oposição não conseguiu liderar uma mudança de rumo. Prevaleceram o medo de perder o pouco que sobrara e o auto-engano de que a própria presidente comandaria um cavalo-de-pau.

Como a guinada não aconteceu, a percepção de contramão aumentou. Em abril de 2015, pouco depois das maiores manifestações pelo impeachment de Dilma, chegaram a 75% os que não concordavam com o rumo que o País tinha tomado. Nesses um ano e meio, a proporção de quem seguia a mesma bússola do governo caiu de 42% (2014) para 20% (2015), até os 14% atuais.

Por comparação, no pior momento do governo Lula, em dezembro de 2005, ainda havia 30% que concordavam com a direção dada pelo petista ao País. À medida que as manchetes sobre o mensalão começaram a dividir espaço com a melhora da economia, a opinião pública mudou, aumentando a concordância sobre os rumos do Brasil, até levar à reeleição do ex-presidente em 2006.

A situação é muito diferente da atual. A deterioração da percepção popular é rápida e contamina o otimismo que sempre caracterizou o brasileiro. Em outubro, apesar da crise, 50% responderam a sondagem da rede internacional de institutos de pesquisa WIN que 2016 seria melhor do que 2015. Três meses depois, essa taxa já caiu para 40%, quase empatando com os 35% que apostam em um ano ainda pior do que o anterior.

Os 14% de concordância com o rumo do Brasil equivalem aos 15% encontrados pelo Gallup nos EUA em 2008, na primeira eleição de Barack Obama. Foi o fundo do poço de oito anos de quedas consecutivas da satisfação dos gringos com o rumo de seu País sob George W. Bush. Sob nova gestão, os EUA não mudaram tanto quanto sua população esperava, mas a alternância de republicanos para democratas fez a percepção sobre o rumo certo subir a 31%.

No Brasil, a incapacidade de a oposição ganhar uma eleição que lhe era francamente favorável bloqueou a mudança de rumo pelas urnas, levando a um impasse que paralisou o País política e economicamente ao longo de 2015. E, pelo que indica esta pesquisa Ibope, o “standoff” deve se estender em 2016.

Em relação à política, apenas uma minoria dos brasileiros – 28% – acredita que o novo ano será melhor. Como 2015 foi de impasse, os 31% que apostam que 2016 será igual somam-se aos 38% que acham que o ano será ainda pior. Ou seja, dois em cada três não demonstram esperança de saída para a crise política. Como consequência, 46% acham que a economia do País vai piorar, e 26%, que ficará igual – ou seja, na pior recessão desde 2002.

A única constante é a crença do brasileiro de que, sozinho, ele se sai melhor do que os vizinhos. Para 61%, sua vida pessoal vai melhorar em 2016. Se todos tivessem razão, o País melhoraria junto. Sem resolver essa contradição e achar uma saída coletiva, o mais provável que é que a maioria dos 61% erre sua previsão.

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