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Eliane Cantanhêde

17 Março 2017 | 03h00

Quanto mais os nomes das “listas do Janot” se multiplicam, mais o Congresso, em geral, e os políticos, individualmente, dão mostras evidentes de que estão completamente perdidos, nadando contra a corrente, em círculos, sem rumo e sem capacidade de reação. Acuados, isolados, não conseguem ouvir nem falar com a opinião pública. Estão sempre atrasados, a reboque dos fatos e reféns das versões.

As duas listas vazadas nesta semana já somam dois ex-presidentes da República e dois ex-ministro da Fazenda do PT, seis ministros do governo Temer, todos os três potenciais presidenciáveis do PSDB, cinco governadores e os ex e atuais presidentes da Câmara e do Senado. Ao todo, oito partidos envolvidos, incluídos aí todos os maiores.

São “todos iguais”, como se martela à exaustão na sociedade há décadas e agora é a chance de “provar”? Ou é questão de justiça “separar o joio do trigo”, como os listados gritam em desespero, sem ninguém ouvir? O desafio é explicar que praticamente todos os candidatos majoritários tiveram financiamento da Odebrecht e que os presidentes de partido, em geral, pediram doações para seus candidatos, mas eles não são, ou nem todos são, como Sérgio Cabral e Eduardo Cunha. No mínimo, há gradações.

A resposta será do Judiciário, mas até lá a opinião pública já terá (se é que já não tem) seu veredicto: todos “são iguais”. Isso prenuncia uma implosão do sistema político sem nada no lugar, mas as tentativas de resistência, até de convencimento, têm esbarrado num imenso muro de desprezo, desconfiança e irritação. Falta racionalidade.

Vamos ao foro privilegiado. Há exageros? Evidentemente há. O timing do Supremo é fora do razoável? É. Mas jogar todos os políticos na primeira instância é a salvação da lavoura? Nem todos os juízes são Sérgio Moro e há um velho compadrio: o político e o juiz tomam uísque juntos. Ou, ao contrário, o juiz é amigão do adversário, um perigo. 

Com crise, saca-se sempre a reforma política, mas desta vez é diferente. Além da proporção da crise, ela tem origem na relação promíscua entre políticos e financiadores de campanha e há o fim do financiamento privado e as eleições estão logo ali, em outubro de 2018.

Sem o oceano de dinheiro de empreiteiras, bancos, frigoríficos, os candidatos vão ter que aprender a nadar no raso. As campanhas terão que ser, obrigatoriamente, mais baratas, como pareceu ser consenso num jantar de anteontem na casa do ministro do STF e do TSE Gilmar Mendes, na linha de frente de uma investida dos três Poderes pela reforma política. Nada de marqueteiros, filmes e efeitos especiais que deformam a realidade a peso de ouro. Mas sem voltar aos tempos da “Lei Falcão”, apenas exigindo que os candidatos se exponham e assumam suas ideias reais.

Além disso, quem terá acesso ao fundo partidário? Vai aumentar, em vez de diminuir, o caixa dois privado? No jantar, houve um consenso: não é possível compatibilizar campanha individual com o fundo. O jeito é lista fechada, em que o eleitor vota, não num candidato, mas num lista preestabelecida pelos caciques dos partidos. A ideia, porém, virou o Judas da vez, entendida como forma de meter os Renans, Lobões e Jaderes no topo da lista e garantir-lhes a reeleição e o foro privilegiado em 2018.

Se há uma conclusão do jantar, que reuniu dois ministros dos TSE e STF, ministros de Temer, parlamentares e diplomatas, é que alguma coisa é preciso fazer, não para secar a Lava Jato, mas para atacar os males do sistema político sem implodir o Congresso, ferir o Executivo e resvalar no Judiciário. Mas, ninguém sabe exatamente o quê fazer, nem como. Os políticos estão num mato sem cachorro e não sabem como sair para chegar a 2018.

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