WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Nome forte de Dilma, Graça Foster sucumbe a Lava Jato

Denúncias de corrupção na Petrobrás minaram gestão da executiva, que há três anos assumiu a presidência com a promessa de conferir caráter mais técnico ao comando da estatal

Fernanda Nunes e Vinicius Neder , O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2015 | 12h51

Rio - Com a promessa de implantar um comando mais técnico, Graça Foster assumiu a presidência da Petrobrás "pelas mãos" da presidente Dilma Rousseff, há três anos. Logo de início, Graça procurou se diferenciar da gestão do seu antecessor, José Sérgio Gabrielli. Dois meses após assumir o cargo, trocou toda a diretoria, com exceção de Almir Barbassa, diretor financeiro e de Relações com Investidores.  

Na apresentação da primeira versão anual do plano de negócios quinquenal sob sua gestão, em junho de 2012, Graça alfinetou o trabalho de Gabrielli e começou a dar forma a um estilo de discurso que muitas vezes seria considerado "sincericídio", revelando fatos e dados ao mercado, mesmo que fossem negativos para a empresa. O objetivo era dar "realidade" aos projetos.

Naquela entrevista coletiva, Graça deu a célebre declaração sobre a Refinaria Abreu e Lima (Rnest): "A Rnest é uma história a ser aprendida, escrita, lida pela companhia, de tal forma a que não seja repetida". No mês seguinte, na cerimônia de batismo de uma plataforma num estaleiro na Bahia, Graça foi obrigada a assumir responsabilidade por decisões da diretoria de Gabrielli, da qual fazia parte desde 2007, após Dilma elogiar publicamente o ex-presidente. 

O atual inferno astral de Graça começou há um ano, entre fevereiro e março de 2014, quando surgiram as primeiras denúncias de corrupção na Petrobrás, reveladas, coincidentemente, pela operação Lava Jato e pelos casos da refinaria de Pasadena e do pagamento de propinas pela fornecedora holandesa SBM. A Lava Jato colocou a construção da Abreu e Lima no centro do escândalo de corrupção, como palco de manobras de superfaturamento comandadas pelo ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, segundo as investigações. 

Aquele primeiro plano de negócios de Graça apontou atrasos nas obras, falhas de planejamento e custos excessivos como motivos para rever o cronograma de entrada em operação das quatro refinarias planejadas na gestão de Gabrielli. A Rnest era o exemplo. Foi a primeira vez que a Petrobrás admitiu publicamente a explosão de custos da obra, dos US$ 2,3 bilhões a serem inicialmente investidos numa sociedade com a venezuelana PDVSA, para US$ 20,1 bilhões. 

A indicação de Graça, engenheira e funcionária de carreira da Petrobrás, foi considerada um gesto de independência da presidente Dilma em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A troca no comando da estatal foi feita somente após o primeiro ano de mandato de Dilma, em fevereiro de 2012. A permanência de Gabrielli no cargo foi vista como uma deferência a Lula. 

Amiga da presidente Dilma e parecida com a chefe em algumas características, como o perfil firme, Graça agradou ao mercado. Em 23 de janeiro de 2012, quando a indicação de seu nome foi confirmada, as ações da Petrobrás subiram. 

Graça assumiu com a missão de focar na exploração dos recursos do pré-sal. Em sua agenda de prioridades, estava a busca de uma solução rápida para a contratação de 21 sondas de perfuração, projeto de US$ 70 bilhões para a exploração do pré-sal e cuja licitação foi suspensa em dezembro de 2011, após impasse sobre quem as construiria.  

Seguindo a indicação de Dilma, Graça bateu o pé para garantir produção das sondas no Brasil, como estímulo à indústria local. Foi aí que a Sete Brasil foi contratada. A empresa, controlada pela própria Petrobrás em sociedade com bancos, é especializada no afretamento de plataformas, mas o plano não deu totalmente certo. A Sete Brasil está hoje em dificuldades financeiras e haverá atraso na entrega das sondas. 

Outra dor de cabeça ao longo de toda sua gestão à frente da Petrobrás foi o controle de preços dos combustíveis. Preocupado com os impactos de reajustes na inflação, o Ministério da Fazenda impedia reajustes. O ex-ministro Guido Mantega, ainda presidente do conselho de administração da estatal, era o principal artífice da manutenção de preços. 

Essa política sangrou o caixa da Petrobrás nos três anos de Graça, período no qual as cotações internacionais do petróleo estavam em alta, aumentando os preços de importação de diesel e gasolina. Com isso, a Petrobrás perdia dinheiro na operação: era obrigada a comprar mais caro lá fora para vender mais barato internamente. 

Graça assumiu prometendo lutar por reajustes. "É lógico que é para corrigir preço", afirmou a executiva, na primeira entrevista ao Broadcast após assumir a presidência, em fevereiro de 2012. "Não faz sentido imaginar que quem vende - qualquer coisa que seja, uma xícara, um caderno, gasolina, diesel - não repasse ao mercado as suas vantagens e as suas desvantagens", completou Graça, que, ao longo do tempo, não teria a força necessária para impedir as perdas da estatal com a importação de combustíveis.  

Com a recente queda nas cotações do barril, a partir do segundo semestre do ano passado, a situação se inverteu. Os preços internos dos combustíveis estão muito acima do valor de importação, mas ainda não deu tempo de a estatal recompor seu caixa com o lucro nessa operação.  

O perfil técnico e as tentativas de se diferenciar da gestão de Gabrielli não evitaram que a imagem de Graça fosse manchada. Quando surgiram as primeiras denúncias, a executiva veio a público para dizer que investigaria tudo e que não sobraria "pedra sobre pedra". Ao longo de toda a crise, Graça não se furtou de ir a audiências no Congresso e dar entrevistas na TV, mesmo quando a gravidade das acusações subiram de tom, após a ex-gerente-geral Venina Velosa da Fonseca ir à imprensa afirmando que alertara a chefe de irregularidades. As duas entraram numa "guerra de versões" em entrevistas na TV e Venina foi ouvida pelos investigadores da Lava Jato. 

Na última semana, Graça também teria desagradado o Planalto ao anunciar que, por causa de corrupção, ineficiência, atrasos e mudanças em cotações, os ativos da Petrobrás podem estar superavaliados em R$ 88,6 bilhões. As declarações foram consideradas a gota d'água para a imagem pública da executiva.

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