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No interior gaúcho, um exemplo dos dilemas do Brasil

Lourival Sant'Anna - O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h 05

Conservadorismo, prosperidade e insatisfação com a saúde influenciam escolhas de moradores de pequena cidade no Rio Grande do Sul

Machadinho - As escolhas de muitos eleitores são consequência não de situações práticas, como emprego, renda, custo de vida, serviços públicos ou mesmo notícias de corrupção, mas de identificações pessoais, de simpatias e rejeições. As questões práticas podem acabar servindo para fundamentar esses sentimentos.

Isso fica visível entre os eleitores das classes A/B com apenas ensino fundamental em Machadinho. Dividido entre continuidade e mudança, esse grupo aborda os mesmos temas - estímulo à agricultura, atividade econômica - para explicar suas preferências. O conservadorismo de moradores da pequena cidade do norte do Rio Grande do Sul também pesa em suas escolhas.

“A gente fica indeciso. Não sabe se está bom assim, se mudar fica melhor”, começa o fazendeiro Raul Tessaro, de 66 anos. “A vida melhorou nos últimos anos, a agricultura e os aposentados tiveram benefícios. Com certeza, foi bem melhor que os governos anteriores. Mas ainda não pensamos se continuamos ou mudamos. A gente tem que pensar que existe possibilidade de melhoras.” Tessaro, que sempre votou no PT, resume: “Estou mais ou menos satisfeito”.

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“Dilma não fez nada. Deu salário para prostituta e presidiário. Já pensou o que vai virar o Brasil? Só vai ter preso e prostituta”, Inês Miola, 54 ANOS, dona de supermercado

“A agricultura é serviço nosso. O governo não ajuda ninguém”, descarta Osmar Taufer, de 46 anos, cuja família tem fazenda, empresa cerealista e loja de material de construção. “Fora, Dilma. Está má a coisa. É muita roubalheira e confusão, muita coisa malfeita. Então temos que mudar.” Taufer, que votou em José Serra na eleição passada, ainda não sabe em quem votará nesta.

Dono de uma loja de bebidas, Carlos Schneider, de 53 anos, também votou em Serra, mas agora quer reeleger a presidente. “Acho que Dilma tem que dar continuidade para o que está fazendo. Os outros não vão chegar lá nunca.” Ele diz que a situação melhorou, no comércio e em Machadinho. “No município não é PT que está mandando. Mas melhorou porque as pessoas foram atrás. A cidade melhorou. A gente acompanha um pouco a economia, mas não dá para dizer que está ruim. Acho que está bom. As coisas melhoraram, com certeza.”

Híbrido. Alceu Marcon, de 51 anos, tem três micro-ônibus e duas vans para transporte dos turistas que vão em busca das termas da cidade, agora com um novo balneário. “Vou votar em mudança com Dilma”, diz Marcon, representante do eleitor híbrido que não deseja continuidade nem correr riscos. “Precisa mudar a disparidade, está muito desigual. Estou achando que está havendo uma ditadura sem que o pessoal perceba”, continua. “Não é isso o que eu quero para o meu País. Precisa ser feita mudança radical. Tá feia a coisa. Nós só trabalhamos para pagar imposto. Trabalhamos a vida inteira e não podemos dar educação para nossos filhos, não temos condição de pagar um estudo para eles.”

“Vou votar por continuidade porque acho que a Dilma está indo bem. Os negócios melhoraram bastante”, avalia Osmar Danieleski, de 50 anos, dono de supermercado, que votou nela e em Lula. “Eles ajudaram bastante a classe mais pobre, melhoraram a vida desse povo mais sofrido. Isso beneficia o meu negócio, porque esse povo mais humilde, tendo condições de comprar mais, vai gastar mais no comércio”, diz ele. “Aumentaram as vendas e a qualidade dos produtos que a gente vende. O povo está escolhendo produtos de melhor qualidade.”

Ilse Zuanazzi Lemos, de 62 anos, costureira aposentada que vive da renda de aluguéis, elogia o ProUni, o programa federal de bolsas e crédito educativo: “O jeito que o governo está ajudando os jovens a estudar na universidade é positivo. Quem realmente quer estuda”. Mas ela quer mudança, principalmente por causa da má qualidade do serviço público de saúde: “É terrível. Se precisa, não é tratado como gente. No Brasil, não tem consideração com o ser humano”. Ilse não tem plano privado de saúde. “Sempre vou ao SUS quando preciso, mas, no desespero, a gente paga. A gente vê na TV que na cidade grande é pior ainda, vê pessoas nas macas morrendo. Em cidade pequena, é mais fácil, sempre consegue”, afirma.

Sem direitos. “O SUS parece que não é um direito, tem que mendigar”, continua Ilse. “O povo não entende que tem direito. Diz: ‘O vereador ou prefeito me ajudou’. Políticos são egoístas, não pensam nas pessoas. Lula, que era pobre, dá essas esmolas. As pessoas são ignorantes, acham bom, e eles querem que seja assim.”

Ela não votou nas últimas eleições. Morou cinco anos na Itália, onde trabalhava como cuidadora de idosos. “Voltei há três anos, só porque minha filha pediu para vir cuidar dos filhos dela”, conta Ilse, que tem outras duas filhas na Itália. “Não sei nem se vou arrumar o título. Não tenho vontade. Todos deveriam não votar. É obrigatório? Bota todo mundo na cadeia. Seria um jeito de tentar ser ouvido.”

“Não devemos ajudar ninguém nem votar”, apoia Darlene Pagano, de 46 anos, dona de loja de roupas. “No comércio, quanto imposto! A gente não vence. Trabalha meio ano só para pagar imposto. Investiram tudo na Copa. E o resto? Quem vai pagar isso?”, revolta-se a comerciante. “Eles fazem as leis e nós ficamos quietos. Não temos o que fazer. Tenho de vender camisa que nem é de marca por mais de R$ 100. E o colono, como vai tirar isso?”, pergunta, referindo-se aos pequenos agricultores.

Lourival Sant
“Dilma não fez nada. Deu salário para prostituta e presidiário. Já pensou o que vai virar o Brasil? Só vai ter preso e prostituta”, Inês Miola, 54 ANOS, dona de supermercado

Juros. “É muito imposto em cima das roupas. Sonegar não dá mais. Tem que pagar tudo certo”, continua Darlene, com um meio sorriso. “Meu marido é agricultor. Os herbicidas estão muito caros. Tem recurso, crédito, mas e os juros? Tem que pagar. É compromisso.” O casal votou no PT nas duas eleições anteriores. “Lula até estava fazendo bem. Este ano, acho que não vamos ajudar ela. Mas ela se elege igual.”

Argeu Ferreira, pecuarista e dono de um edifício em que aluga apartamentos e lojas, foi vereador pelo PMDB e defende a continuidade. “Os planos governamentais estão muito bons para a agricultura, para o pessoal de renda baixa. Os programas dela estão bons. Então vamos continuar”, argumenta. “A vida tem melhorado muito aqui. Antes tu chegavas a um banco e não arrumavas dinheiro para nada. Hoje, tem dinheiro para tudo: casa própria, compra de gado, financiamento para tudo que é coisa.”

Agricultor até o ano passado, Isaac Ruas, de 63 anos, trabalha agora só na pousada que abriu há cinco anos, para receber visitantes das termas. Ele quer mudança sem Dilma. “Acho que ela fez um bom governo. Só que manipulou os deputados e senadores para nem passar por uma comissão a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.” Ele tem filhos que moram em Florianópolis e diz que “reza todos os dias” para que não sejam vítimas da violência. “Aqui é o paraíso. Mas, para quem mora em cidade grande, isso é triste demais. E quem está cometendo crimes são os menores.”

Mudança. Celsoir Escorteganha, de 58 anos, é um dos mais prósperos empresários da cidade. Conhecido como Sabiá, apelido que dá nome a um loteamento seu, é também criador de cavalos. Assim como Schneider, ele votou em Serra e agora votará em Dilma. “Está bom, andando bem. Hoje tem mais emprego, mais facilidade de buscar recursos. No social, houve bastante desenvolvimento e tem perspectiva para um futuro bom.” Seus dois negócios estão indo bem. “Programei para ter essa sequência. Se tiver mudança, pode prejudicar os negócios.”

“Dilma não fez nada”, contra-ataca Inês Miola, de 54 anos, dona de supermercado. “Deu salário para prostituta e presidiário. Quanto mais mordomia para preso, mais vão fazer. Além de comer e dormir, vai ter salário? Já pensou o que vai virar o Brasil? Só vai ter preso e prostituta.” Uma sobrinha que a ajuda no supermercado arremata: “Ganha R$ 1 mil, R$ 2 mil. Vou me prostituir também”. Inês completa: “O Bolsa Família, quem não precisa está ganhando e para quem precisa eles não dão”. Ela lembra de ter votado em Geraldo Alckmin, candidato do PSDB em 2006. “Este ano, ainda não pensei em quem vou votar.”

A aposentada Cenita Mokfa, de 76 anos, que já teve fazenda e lanchonete, caminhava com seu cachorrinho no colo na praça principal da cidade no meio de uma tarde ensolarada de quinta-feira. “Para endireitar, não está fácil”, diz ela. “Tá muito complicado o nosso Brasil. A saúde está muito ruim. A gente vê tantas pessoas morrerem na fila, sem atendimento. Está horrível para as pessoas pobres.” Mesmo assim, Cenita, que votou em Dilma, diz que quer continuidade: “Não adianta mudança”. Em seguida, pondera: “Tem uns candidatos bons. Vamos ver mais adiante. Ainda não decidi em quem vou votar.”

Os dilemas de Cenita e de Machadinho são, em grande medida, os do Brasil.

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