Ricardo Stuckert|PR - 8|7|2010
Ricardo Stuckert|PR - 8|7|2010

No esporte, grandes eventos e pouco legado

Governos petistas investiram alto em Copa e Olimpíada e política social ficou em 2º plano

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2016 | 05h00

Copa do Mundo, Olimpíada, Jogos Pan-Americanos, Jogos Mundiais Militares. Os anos do PT no poder foram marcados, no esporte, por trazer ao Brasil os principais eventos do planeta. Mas, a reboque, vieram também controvérsias. Obras de infraestrutura prometidas e não realizadas, custo astronômico de equipamentos esportivos como os estádios do Mundial de 2014, suspeitas de troca de favores e superfaturamento. 

O País fez a festa, ganhou visibilidade, mas ficou longe do pódio esportivo e do legado. E os investimentos com os grandes eventos acabaram por colocar em segundo plano uma das primeiras bandeiras do governo do PT, hasteada ainda durante a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência: a face social do esporte.

Os Jogos Pan-Americanos de 2007 foram o primeiro evento esportivo de peso da era Lula. E serviram de peça de propaganda para um sonho bem maior: trazer a Olimpíada ao País e à América do Sul.

Para isso, não se mediram esforços nem dinheiro. Foram construídos vários equipamentos esportivos, vila para atletas com prédios de padrão internacional e o investimento em segurança foi pesado. A conta de R$ 3,7 bilhões acabou rateada entre os governos municipal, estadual e federal – Brasília contribuiu com cerca de R$ 1,8 bilhão.

“Valeu a pena gastar com construção de centros esportivos e mostrar que o Brasil tem condições de abrigar uma Olimpíada e uma Copa do Mundo”, disse Lula em 30 de julho de 2007, ao fazer balanço do Pan.

A euforia presidencial – e de resto de todos os políticos – com o Pan não contagiou o público. Na cerimônia de abertura, no Maracanã, Lula foi vaiado seis vezes – sempre que sua imagem aparecia no telão do estádio ou alguém proferia seu nome. Acabou quebrando o protocolo e se negando a declarar abertos os Jogos. Repassou a missão ao presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman.

O prometido legado social nas áreas de transportes, mobilidade e meio ambiente, para apontar apenas três, simplesmente não existiu. Mas o Pan cumpriu o principal objetivo de Lula, Nuzman e companhia: fortalecer o Brasil na disputa para sediar a Olimpíada, o que se tornaria realidade em 2009.

Copa das Copas. Dois anos antes, havia sido concedida ao Brasil a organização da Copa do Mundo de 2014, aquela que o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, prometeu que seria feita “sem um centavo de dinheiro público”.

Teixeira “errou as contas” em pelo menos R$ 22,7 bilhões, se forem considerados os números do Balanço Final da Copa, divulgado em dezembro de 2014 pelo Ministério do Esporte: o gasto total com o “Mundial dos 7 a 1’’ foi de R$ 27,1 bilhões, dos quais R$ 4,3 bilhões de recursos privados.

Claro que Estados e municípios também contribuíram, mas o grosso saiu dos cofres do governo federal das mais variadas maneiras, como os R$ 3,8 bilhões retirados por meio da linha de crédito que o BNDES criou para construção e reforma das arenas – no total, foram torrados nos 12 estádios R$ 8,3 bilhões, R$ 1,4 bilhão deles gastos apenas no Mané Garrincha, de Brasília, que vive às moscas.

Das contas da Copa do Mundo fazem parte também os gastos com a Copa das Confederações, realizada em 2013 como teste para o prato principal, já com o País sob o comando de Dilma. O Brasil ganhou em campo, mas a competição ficou marcada também pela tremenda vaia – acompanhada por xingamentos – que a presidente recebeu na abertura do torneio (Brasil 3 x 0 Japão), realizada no tal estádio de R$ 1,4 bilhão. 

Mas no campo esportivo o Brasil era o País da Copa e também da Olimpíada. O Rio se preparava com turbulências e atrasos em obras e o governo federal, apesar da crise, manteve os investimentos. Mesmo porque, vale ressaltar, seu quinhão com os Jogos é o menor de todos. De acordo com a última atualização da Matriz de Responsabilidades, divulgada em janeiro, apenas 8% dos R$ 36,7 bilhões que, estima-se, custarão a Olimpíada serão arcados por Brasília, ou seja R$ 1,2 bilhão.

Se investe relativamente pouco na preparação da Olimpíada, o governo federal colocou dinheiro para valer no sonho de o País ficar entre as dez principais potências olímpicas nos Jogos que o Rio vai sediar.

A iniciativa mais contundente dessa política é o Plano Brasil Medalhas 2016. Lançado com pompa e circunstância em setembro de 2012 – com Dilma no Planalto e Aldo Rebelo chefiando o Ministério do Esporte –, destinou R$ 1 bilhão aos esportes olímpicos e paraolímpicos, dinheiro investido na preparação de atletas com potencial para subir ao pódio.

Tais programas, de certa forma, acabaram ligados a um maior, criado em 2005, no primeiro mandato Lula, e aclamado pelo governo como “o maior do mundo em patrocínio esportivo individual e direto”: o Bolsa Atleta, que nos dez primeiros anos – até agosto de 2015 – havia assistido em maior ou menor escala 43 mil atletas.

No total, juntando todos os programas, o gasto federal previsto para preparar atletas para a Olimpíada atingirá, entre 2013 e 2016, R$ 2,5 bilhões, de acordo com dados oficiais divulgados pelo governo Dilma – que ajudou a preparar, mas não estará na festa.

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