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Nas grandes greves do ABC, lobista tentou tirar Lula da prisão

Mauro Marcondes, que contratou empresa de filho de ex-presidente, atuou para libertá-lo da prisão após greves no ABC

Adriano CeolinAndreza MataisFábio Fabrini, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2015 | 17h13

BRASÍLIA - O lobista Mauro Marcondes Machado, que contratou um dos filhos de Luiz Inácio Lula da Silva por R$ 2,4 milhões e atuou para viabilizar uma medida provisória suspeita de ter sido comprada no governo do petista, mantém uma relação próxima com o ex-presidente desde os anos 1980.

Atual consultor de empresas do setor automotivo, Marcondes tentou até tirar Lula da cadeia quando o ex-presidente foi preso durante uma greve no ABC paulista. Nas paredes de seu escritório, o lobista exibe fotos ao lado do ex-presidente. “É quase um andar inteiro. Tem algumas fotos do Marcondes ao lado do Lula”, contou ao Estado um empresário que esteve no local.

Os destinos de Lula e Marcondes se cruzaram pela primeira vez na cidade de São Bernardo do Campo, no interior paulista, palco das greves que desafiaram o regime militar no fim da década de 1970 e início dos anos 1980 e berço do Partido dos Trabalhadores. A história do ex-presidente é bastante conhecida. Metalúrgico de formação, transformou-se presidente do sindicato de sua classe, comandou as paralisações e foi rapidamente catapultado à posição de líder popular.

A do lobista é restrita a quem acompanha o setor automotivo. Na virada dos anos 1970 para os 1980, Marcondes era diretor executivo do Sindicato da Indústria Automobilística (Sindfavea). Em 1984, ele foi contratado como diretor de Relações de Recursos Humanos e Relações Institucionais da Scania, multinacional sueca cuja sede fica em São Bernardo do Campo.

Definido por um ex-sindicalista como “progressista” e “afeito ao diálogo”, Marcondes galgou postos na companhia até abrir uma empresa de “diplomacia corporativa” num dos endereços mais caros da capital paulista – na Torre I do shopping de luxo Cidade Jardim, no bairro Morumbi, na zona sul.

Greve. Em 1980, quando Lula foi preso por liderar uma greve de 18 dias no ABC, Marcondes juntou-se com demais empresários do setor para pedir a soltura do líder sindical. Na biografia do empresário Wolfgang Sauer, O Homem Volkswagen, o próprio Marcondes conta como fez lobby naquela oportunidade para tirar Lula da cadeia: “(...) O Lula era controlador de tudo aquilo. Quando ele foi preso por participar de movimentos ilegais, à época, o Sauer juntou-se a outros presidentes de montadoras, e fomos juntos tentar demover o governo da ideia de mantê-lo preso (...)”.

Lula foi solto e naquele mesmo ano fundou o PT, pelo qual disputaria a Presidência da República três vezes antes de eleger em 2002. Três meses após eleito, Lula e Marcondes tiveram a primeira audiência em Brasília.

Ao lado do presidente mundial da Scania, o consultor reuniu-se com o petista para anunciar o plano da empresa de adotar uma cidade brasileira com até 5 mil habitantes com baixo índice de desenvolvimento. A iniciativa definida como “marketing social” ocorreu como forma de promover a adesão da Scania ao então recém-lançado Fome Zero, vitrine do primeiro mandato de Lula.

Desligado. Marcondes, de 79 anos, foi preso preventivamente ontem na terceira fase da Operação Zelotes. Desde 1983 ele era dirigente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A partir de 2010, passou a representar a MMC na entidade e tornou-se vice-presidente. Ele foi suspenso ontem do cargo.

“Tendo em vista as reportagens publicadas pela imprensa sobre a Operação Zelotes, reiteramos que tratam-se de casos particulares dos citados. Contudo, em defesa da coletividade e dos interesses de nossas associadas, a entidade está suspendendo temporariamente o atual representante da MMC Automotores do Brasil de sua diretoria pelo período necessário para defesa e conclusão do processo investigativo pelos órgãos institucionais”, informou o presidente da Anfavea, Luiz Moan. / COLABOROU CLEIDE SILVA

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