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Entrevista. Aloysio Nunes Ferreira, candidato a vice-presidente pelo PSDB

Envolvido em recente bate-boca com blogueiro do PT, senador afirma que não vai fugir de questões sobre cartel e Paulo Preto

'Não tenho sangue de barata', diz Aloysio sobre polêmicas

Débora Bergamasco

01 Julho 2014 | 02h 01

Andre Dusek/Estadão
Presidenciável Aécio Neves optou por nome de São Paulo para a vaga de vice em sua chapa

BRASÍLIA - Após ser anunciado candidato a vice-presidente na chapa do PSDB, o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) disse que não vai mudar seu estilo nem levará desaforo para casa, pois não tem "sangue de barata".

Em maio, Aloysio envolveu-se em uma discussão no Senado com o blogueiro Rodrigo Grassi, ex-assessor da deputada Erika Kokay (PT-DF) e conhecido como Rodrigo Pilha. O tucano respondeu sobre por que o PSDB não apoiava uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo sobre o cartel de trens que atuou em gestões tucanas, mas passou a bater boca com Pilha quando foi questionado se teria envolvimento com o esquema.

Aloysio foi citado em investigações sobre o cartel. O Supremo Tribunal Federal analisou o pedido de abertura de inquérito mas não viu indícios contra o parlamentar. O tucano afirmou não temer que adversários levem o tema à campanha, assim como a amizade com Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-diretor da Dersa que comandou obras viárias do governo paulista e hoje tem o crescimento de patrimônio sob investigação, "Essas questões já foram levantadas muitas vezes, sem nenhuma credibilidade", disse Aloysio.

Qual será seu papel nesta campanha presidencial?

Vou me dedicar bastante a São Paulo. O Aécio costuma dizer que, se tiver uma boa vitória em São Paulo, ele será presidente da República. Vou me esforçar muito para isso.

Em qual debate o sr. pretende ser protagonista em um eventual mandato de vice-presidente?

O sistema político precisa passar por uma transformação profunda. Minha preocupação é a saúde institucional que está sendo comprometida. Dilma Rousseff é enredada em um sistema que está fazendo água e ela não fez nada para mudar. Ela desperdiçou seu prestígio e se acomodou aos maus exercícios da política, com um sistema patrimonialista e fisiológico.

O sr. disse que "pisou em uma casca de banana" ao cair na provocação e discutir com um blogueiro. Está preparado para os acirramentos da campanha?

Não tenho como mudar o meu temperamento, não tenho sangue de barata. Mas vou evitar conflitos inúteis que tirem o foco da nossa luta pela mudança.

Como o sr. vai se defender dos temas Paulo Preto e cartel, que os adversários podem explorar?

Essas questões já foram levantadas muitas vezes, sem credibilidade. Nunca tive nenhum processo ou investigação nem no Tribunal de Contas, nem na polícia, nem no Ministério Público, nem em coisa nenhuma. Estou há muitos anos na vida pública, já geri orçamentos vultosos, já ocupei cargos da mais alta responsabilidade.

O sr. disse que, aos 69 anos, não seria tão fácil viajar por todo o Brasil em ritmo de campanha.

As pessoas dizem que idade é experiência. No meu caso é mesmo. Exerci meu primeiro mandato há mais de 30 anos e tenho estado na vida pública desde a juventude. Sou um homem de 69 anos, mas tenho um corpinho de 30. O espírito precisa se atualizar em algumas coisas. É um grande desafio para todo político hoje sintonizar com os jovens.

O sr. foi motorista de Carlos Marighella, um dos principais líderes da resistência armada contra a ditadura militar?

Fiz parte do período da organização e eu era um excelente motorista - mas parece que eu perdi essa habilidade, segundo minha mulher. Às vezes dirigia o carro que ele ocupava, porque ele não sabia guiar.

O sr. chegou a pegar em armas e apertar gatilho?

Eu não quero me colocar aqui na condição de ex-combatente nem de herói, que nunca fui. Acho que essa opção (luta armada) foi profundamente equivocada, tanto na estratégia quanto na tática e na concepção política. A concepção da luta armada, a rigor, não era democrática. Eu me lancei no movimento porque na hora me parecia o que era necessário fazer. Eu costumo casar convicções com atitudes. No momento, tinha convicção de que era a atitude correta.

Para aceitar o convite de Aécio, o sr. teve de se comprometer com sua mulher a não viver enclausurado nos Palácios do Planalto e do Jaburu?

Gosto de ir ao cinema, à padaria, ao restaurante, pego fila do idoso. Não sei viver de outra forma. Meu modelo é o (presidente do Uruguai) Pepe Mujica. Menos o Fusca (carro de Mujica).

PERSONAGENS

Paulo Vieira de Souza: Aloysio é amigo de Souza, conhecido como Paulo Preto, responsável por obras viárias nos governos tucanos em São Paulo, como o Rodoanel. Souza é alvo de dois inquéritos que apuram a evolução de seu patrimônio, mas nunca foi denunciado à Justiça.

Jorge Fagali Neto: Aloysio também é próximo de Fagali, réu do caso Alstom, em que a multinacional é acusada de pagar propina para obter contratos de energia no governo tucano, por lavagem de dinheiro.

Arthur Teixeira: Aloysio foi citado pelo delator do cartel de trens, Everton Rheinheimer, como próximo a Teixeira, apontado como lobista e indiciado sob suspeita de cartel, corrupção e outros crimes. O tucano não foi incluído na apuração da Polícia Federal por falta de prova.