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Política

Dora Kramer

Não tem salvação

Numa canetada do ministro Teori Zavascki virou pó a entrega do governo ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva como solução para tentar contornar a crise política, reaglutinar aliados e dar um novo rumo à economia. Se tudo isso já era um milagre de difícil operação, depois da homologação da delação premiada do senador Delcídio Amaral tornou-se missão impossível. 

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Dora Kramer

16 Março 2016 | 05h54

Sem contar o aumento da chance de fracasso da ideia de proteger o ex-presidente sob o instituto do foro especial de Justiça para afastá-lo do alcance do juiz Sérgio Moro. Além de Lula não reunir condições objetivas para tirar a presidente Dilma Rousseff da rota do desastre, a gravação em que o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, tenta por intermédio de um assessor de Delcídio comprar o silêncio do senador com promessas de “ajuda”, é um tiro no peito do Planalto.

Ainda que não tenha o efeito da chamada bala de prata, o teor da conversa põe a presidente da República na seguinte situação: ou joga Mercadante ao mar dizendo que ele agiu por conta própria ou mantém o ministro no cargo tornando-se seu cúmplice. Ou pior, assumindo a condição de mandante. De qualquer modo, nessa altura é absolutamente irrelevante Lula aceitar ou não ocupar um gabinete no Palácio do Planalto.

Em todos esses anos de poder o PT se caracterizou por reagir com a criação de factoides para combater fatos adversos. Na impossibilidade de resolver os problemas, muda de assunto e, na maioria das vezes, cria um enrosco ainda maior para si e para o governo. Na situação extrema dos últimos tempos, a usina de equívocos entrou em fase de produção acelerada. Quanto mais grave a crise, mais ideias estapafúrdias saem das cabeças dos dirigentes do partido e das autoridades com assento no Palácio do Planalto. 

Essa mais recente, de dar a Lula a tarefa de salvar a lavoura esbarra na evidência de que já não há terreno fértil para bom cultivo. 

O PMDB não volta, inclusive toma providências estatutárias para impedir desobediência à convenção do último sábado e pode até antecipar a manifestação do Diretório Nacional sobre o rompimento marcada para daqui a 30 dias, a economia tende a piorar se forem atendidos os apelos por mudanças feitos pelo PT e nada de interesse crucial do governo (CPMF e reforma da Previdência) passa no Congresso.

A outra finalidade, de proteger Lula, mostra-se igualmente inútil. Nada garante, conforme anunciou o ministro Marco Aurélio Mello, que o Supremo Tribunal Federal será benevolente com ele. 

Já mandou prender um senador no exercício do mandato, pode perfeitamente mandar prender um ministro demissível do cargo. 

A ida de Lula para o ministério ainda tem a desvantagem de aumentar o clima de tensão permanente, de representar uma deposição (consentida) da presidente, de significar reconhecimento de culpa e de deixar o ex-presidente na condição de sócio da débâcle no caso nada improvável de o governo cair.

As águas turbulentas e lamacentas ainda não pararam de rolar. Há as delações premiadas de empreiteiras e o desenrolar das investigações feitas a partir das informações fornecidas por Delcídio Amaral. 

Delas, a Lava Jato vai extrair a dimensão do envolvimento do tucano Aécio Neves e do vice-presidente Michel Temer, ambos citados na delação, no escandaloso caso. Serão investigados e talvez venham a integrar o rol dos implicados.

Mas o senador Aécio Neves não é governo e Michel Temer não está por ora sob ameaça de um pedido de impeachment, embora possa vir a sucumbir à acusação de abuso de poder econômico na última eleição. Isso, no entanto, faz parte de etapa adiante. Dilma, Lula e o PT estão sentados sobre uma bomba de efeito premente.

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