Não só guerra de vaidades

Todas essas crises, variadas e simultâneas, criam o ambiente político e as circunstâncias práticas para a explosão de velhos e inconciliáveis confrontos de poder e de vaidade: o PT em baixa contra o PMDB insaciável; a Polícia Federal em alta contra a Procuradoria-Geral da República no foco.

ELIANE CANTANHÊDE, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2015 | 02h03

Há, porém, uma grande diferença nessas crises que pipocam dentro da grande crise. A do PT versus PMDB se reproduz quando a política e o governo que ambos elegeram despenca nas pesquisas de opinião, mas a da PF versus PGR ocorre justamente quando as duas instituições estão no palco, sob holofotes, vivamente aplaudidas.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, tirou os depoimentos políticos da PF e os levou para a PGR, obtendo do Supremo Tribunal Federal a suspensão das investigações da Operação Lava Jato. A pergunta que não quer calar é se isso é (só) parte da velha guerrinha miúda, cotidiana, entre policiais federais e procuradores, ou se é algo mais sério: uma tentativa de passar a mão na cabeça de poderosos, como os presidentes da Câmara e do Senado, dos quais o Planalto depende tão vitalmente.

É assim que, se caminhavam firmemente ao largo da crise política e econômica e batiam de frente na crise ética, a PF e a PGR acabam de ajustar seus passos aos da crise. Estão criando artificialmente mais uma crise, a própria crise, chamando a atenção para a guerra de vaidades e criando suspeições que não deveriam existir.

Por favor, juiz Sérgio Moro, aguente firme, mantenha o alvo, a direção e a determinação. Deixe para lá as questiúnculas e as vaidades alheias, tanto quanto deu de ombros para as pressões políticas e econômicas para priorizar objetivos.

Dizem que "em briga de marido e mulher, não se mete a colher". Pois em briga de policiais e procuradores, neste momento, juízes também não devem meter a colher. A não ser para garantir o êxito do trabalho conjunto de todos eles, com os bons resultados da Lava Jato.

Se Moro deve ficar olimpicamente distante da crise de relação dos parceiros, os três Poderes estão não apenas ao lado dela, mas dentro dela. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, tenta fazer um meio de campo entre Janot e o diretor-geral da PF, Leandro Daiello. Como se já não tivesse problemas suficientes, seus e do seu partido... E o relator no Supremo, Teori Zavascki, está exatamente no meio do tiroteio.

A próxima etapa da disputa de espaço e de egos já está quente: a PF aguarda ansiosamente a resposta do Supremo para seus múltiplos pedidos de diligência da Lava Jato, fundamentais para "seguir o dinheiro" - regra máxima da polícia - e para fazer os cruzamentos mais complexos - entre empresas, diretores, políticos e partidos. A resposta do Supremo, via Zavascki, vai deixar claro se há total independência de investigação ou... se há forças ocultas atuando para que uns investigados sejam menos investigados do que outros. Um passo essencial, portanto.

E num momento em que a recém-reeleita presidente da República tem desesperadores 13% de aprovação popular, o tesoureiro do PT foi parar na cadeia, os juros da casa própria sobem pela segunda vez desde janeiro, a conta de luz vai aumentar de novo, a dengue mata um por dia em São Paulo... Convenhamos, não é hora de PF e PGR se engalfinharem.

A única válvula de escape vem da sensação generalizada na sociedade de que as investigações são sérias e confiáveis e de que os brasileiros têm pelo menos um consolo: se a roubalheira foi gigantesca, está sendo devidamente descoberta e combatida. Se nem isso sobrevive, há pouco em que se agarrar.

Da mesma forma que a economia vive da credibilidade e da confiança, a Polícia Federal, a Procuradoria e a Justiça também. Jogar isso fora por vaidade, por disputa de espaços e, principalmente, por manipulações políticas pode até caber na guerra entre os "aliados" PT e PMDB, não nos parceiros de combate ao crime.

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