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Política

Brasília

Não senti resistência no governo, diz lobista suspeito de 'compra' de MPs

Mauro Marcondes diz que contratou economista ligado ao PT para estudos sobre as normas por ter mais 'credibilidade'; ele negou em depoimento ter participado de corrupção

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Fábio Fabrini,
O Estado de S.Paulo

09 Março 2016 | 18h42

Brasília - Em depoimento prestado à Justiça, o lobista Mauro Marcondes Machado, réu de ação penal que avalia suposto esquema de "compra" de medidas provisórias para prorrogar benefícios fiscais a montadoras de veículos, disse que encontrou no governo um ambiente favorável à concessão dos incentivos à indústria. "Não senti resistência. Senti que havia uma vontade política", afirmou, durante oitiva nesta quarta-feira, 9, que durou mais de três horas.

Na audiência, o lobista do setor automotivo confirmou ter feito gestões junto a autoridades públicas para aprovar as medidas provisórias. Mas explicou que esse trabalho se limitou à explicação de vantagens, no aspecto técnico, da prorrogação dos incentivos. Ele disse que, no lobby pelas MPs, entregou ao ex-ministro Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um estudo e dois pareceres de juristas.

"Tenho 56 anos de atividade pública. Nunca precisei corromper ninguém. Nunca cometi um ato ilícito. Nunca um colaborador meu cometeu", sustentou.

O lobista, que está preso desde outubro, relatou ter trabalhado pela aprovação das MPs 471, de 2009, e 627, de 2013. Nos dois casos, informou, os serviços prestados a montadoras se limitaram à contratação de estudos e a reuniões com agentes públicos, entre eles o atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dyogo Oliveira, para demonstrar os impactos favoráveis da aprovação dos incentivos.

Credibilidade. No caso da 627, ele disse ter contratado, para estudos, os serviços do economista Bernard Appy, que integrou a equipe do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci na primeira gestão Lula (2003-2006), ligado ao partido do governo. "Fiz questão de que fosse do PT, porque tinha mais credibilidade".

O lobista foi questionado sobre porque, numa planilha apreendida em seu escritório, a ex-assessora da Casa Civil Lytha Spíndola e o ex-ministro Gilberto Carvalho são citados como colaboradores de projetos de sua empresa. Lytha também é ré da ação penal, acusada de ter recebido propina em troca de ter feito gestões em favor das montadoras. Ela nega. Gilberto Carvalho é investigado por suposto "conluio" com o lobista, mas não foi denunciado. Também refuta qualquer ter participado de qualquer ilegalidade.

O lobista disse que a planilha foi elaborada por uma babá que promoveu a secretária e se atrapalhou ao produzir o documento. "Ela andou fazendo algumas planilhas e incorreu em vários erros. Gosto de poder ajudar as pessoas", justificou.

Ao fim da sessão, Marcondes chorou ao falar do impacto das investigações e da prisão sobre sua vida pessoal e profissional. Ele alegou que seu trabalho foi sempre de lobby técnico e que a denúncia do MPF, baseada em relatórios da Receita Federal, entre outros documentos, se baseia em distorções e "preconceito" contra a atividade. "Me sinto deprimido, não reconhecido. Está sendo visto só o lado negativo (do trabalho)", reclamou.

O lobista afirmou que as MPs investigadas (além da 471 e da 627, também há suspeitas sobre a 512/2010) trouxeram investimentos de US$ 70 bilhões para o Brasil e foram aprovadas sem maiores controvérsias no Congresso.

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