André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'Não respeito delator', afirma Dilma

Presidente fez sua primeira manifestação pública após a divulgação da delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa, que disse ter dado R$ 3,6 mi a tesoureiros do PT

Cláudia Trevisan e Altamiro Silva Jr., O Estado de S.Paulo

29 Junho 2015 | 14h52

Atualizado às 23h00

NOVA YORK - Com referências à Inconfidência Mineira e a seu passado de presa política, a presidente Dilma Rousseff atacou nesta segunda-feira, 29, o dono da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa, e disse que as contribuições da empresa a sua campanha de reeleição foram realizadas de maneira legal. “Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei o que é que é. Tentaram me transformar em uma delatora”, disse a presidente em Nova York, em suas primeiras declarações públicas desde a divulgação da delação premiada de Pessoa, na sexta-feira.

Conforme revelou o estadão.com.br na sexta-feira, Pessoa diz ter repassado, via caixa dois, R$ 3,6 milhões aos ex-tesoureiros petistas José de Filippi, responsável pelas contas da campanha de Dilma em 2010, e João Vaccari Neto entre 2010 e 2014. Segundo reportagem da revista Veja, o total de repasses à campanha de Dilma Rousseff em 2014 foi de R$ 7,5 milhões.

Dilma ressaltou que a empresa também fez doações a seu adversário no 2.º turno da eleição presidencial, Aécio Neves (PSDB), em valores semelhantes aos recebidos por sua campanha. “Eu não aceito e jamais aceitarei que insinuem sobre mim ou minha campanha qualquer irregularidade. Primeiro porque não houve. Segundo, se insinuam, alguns têm interesses políticos”, afirmou, em um tom enfático. A presidente disse ainda que nunca se encontrou com Ricardo Pessoa.

Outro motivo apresentado pela presidente para refutar as acusações foi o fato de ser mineira e ter crescido com lições sobre a Inconfidência. “E há um personagem que a gente não gosta, porque as professoras nos ensinam a não gostar dele. E ele se chama Joaquim Silvério dos Reis, o delator. Eu não respeito delator”, disse, mencionando o traidor do movimento dos inconfidentes mineiros.

A presidente lembrou o período em que ficou presa, durante a ditadura militar, e foi submetida a tortura para entregar seus companheiros. “E eu garanto para vocês que eu resisti bravamente.” Apesar das críticas, Dilma afirmou que a Justiça, o Ministério Público e a Polícia Federal devem investigar as denúncias. “Tudo, sem exceção.” Ela disse que tomará medidas contra Pessoa caso ele faça acusações contra ela. Quanto aos ministros mencionados na delação, Edinho Silva (Comunicação) e Aloizio Mercadante (Casa Civil), a presidente afirmou que cabe a eles decidir o que fazer em relação a Pessoa. 

Reação. O senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, ironizou as declarações da presidente Dilma Rousseff. “As novas declarações da presidente Dilma Rousseff atestam o que muitos já vêm percebendo há algum tempo: a presidente ou não está raciocinando adequadamente ou acredita que pode continuar a zombar da inteligência dos brasileiros.” Segundo ele, as doações recebidas da UTC foram legais e declaradas à Justiça. O nome de Aécio não aparece na delação de Pessoa. 

Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), afirmou que a delação existe no Brasil desde 1990 e que “a própria presidente enviou o projeto de lei que prevê a figura da delação no pacote anticorrupção que está no Congresso”. Ele também comentou a comparação com os delatores da ditadura: “Querem transformar os executivos e políticos presos (na Operação Lava Jato) em presos políticos”. O jurista Dalmo de Abreu Dallari disse que as informações prestadas por um delator não têm o mesmo peso que uma confissão ou depoimento comum. “Em princípio (a delação) tem um valor menor porque depende de provas que a confirmem.”

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