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Não há aliens no Supremo

O sabatinado voltou-se para o presidente da comissão, a seu lado, e perguntou sobre o andamento da sabatina. Ao ouvir a resposta, sorriu e piscou o olho esquerdo. O repórter Dida Sampaio seguia os movimentos da dupla com sua Canon EOS-1D X e imortalizou a cena. Pelos personagens flagrados e sua circunstância, a foto da piscada virou ícone do momento político e viralizou nas mídias sociais, assim que publicada pelo Estado.

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José Roberto de Toledo

23 Fevereiro 2017 | 03h00

Em primeiro plano, o perfil do presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Edison Lobão (PMDB-MA), aparece propositalmente borrado. O foco está à sua frente, no personagem principal do dia, talvez do ano: ministro licenciado da Justiça, Alexandre de Moraes (ex-PMDB, ex-PFL e ex-PSDB) comprime os lábios, engolindo o sorriso, e cerra com força as pálpebras de um olho só, em sinal de aprovação. O cabelo tingido de um e a careca do outro realçam o contraste.

O gesto teatral de Moraes seria banal, não estivesse ele sendo sabatinado na CCJ para virar ministro do Supremo Tribunal Federal. Se aprovado – como viria a ser –, Moraes pode julgar vários daqueles senadores, a começar por Lobão, citado múltiplas vezes por delatores da Lava Jato. Aquela piscadela não denotava um ilícito, mas sua desenvoltura e cumplicidade reforçaram a conotação que já estava na cabeça de parte da opinião pública: “estão todos combinados”, “está tudo dominado”.

O preconceito está nos olhos de quem vê, dirão sabatinadores e sabatinado. E com razão: vemos com os olhos, mas enxergamos com o cérebro e todos os seus vieses. Nem tudo é viés de confirmação, porém. Acumulam-se fatos nada alternativos que sugerem outras qualidades que não o saber jurídico para Moraes estar ali, piscando para a alcateia.

Como chefe da polícia paulista, Moraes montou força-tarefa que identificou, prendeu e conseguiu a condenação em tempo recorde do chantagista que hackeou o celular da primeira-dama Marcela Temer e ameaçava “jogar na lama” o nome de seu marido. Promovido a ministro da Justiça e chefe da Polícia Federal, manteve-se bem informado sobre os passos da Lava Jato, como demonstrou ao dizer, em ato político, que haveria operação no dia seguinte.

Quando o avião em que estava Teori Zavascki deu seu mergulho fatal no mar de Paraty, Moraes posou ao lado de Temer enquanto o presidente fazia sua declaração de pesar pela morte do ministro do STF e relator da Lava Jato. Nas articulações que se seguiram para nomear o substituto, Moraes foi poupado do escrutínio dos primeiros dias pós-tragédia graças ao vazamento do nome de um boi de piranha que, por comparação, tornou o seu palatável.

Indicado por Temer, Moraes cabalou votos como o político que é. Visitou senadores e fez até sabatina informal com uma dúzia deles em uma chalana ancorada no lago Paranoá, conhecida em Brasília como “barco do amor” – pelo ambiente familiar.

Essas qualidades superaram o desempenho do ministro como gestor da já aparentemente esquecida crise nos presídios, e no combate às facções do crime organizado que ameaçam virar cartéis. Seu desempenho fez todos esquecerem que ele próprio defendia que políticos não devem ser nomeados para o Supremo.

A aprovação de Moraes sepulta o mito de que ministros do STF são aliens de Trappist-1, sem lado nem viés. Humanos, eles formam um tribunal que é alvo de lobbies empresariais e partidários, que sofre pressão da opinião pública e faz julgamentos políticos. É tão sujeito a crises quanto o resto da praça dos Três Poderes. Para a imagem do Supremo, a Lava Jato não será outro mensalão. Os vizinhos estão vibrando. Há tempos não se sentiam tão iguais.

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