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Robson Fernandjes/Estadão

ENTREVISTA:

Fernando Henrique Cardoso

O Estado de S. Paulo

'Não é hora de afastar Dilma nem de pactuar', diz FHC

Para ex-presidente, PT tenta atribuir impeachment a tucanos e Lula prefere acusar PSDB de 'maus' a querer dialogar

ELIANE CANTANHÊDE

10 Março 2015 | 02h01

São Paulo - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal líder do PSDB e, portanto, da oposição, já tem uma posição clara diante da crise: nem apoio ao impeachment, nem pacto com o PT. Em entrevista ao Estado, ontem, FHC disse que o horizonte mais provável é de que o governo "fique cozinhando o galo em fogo brando" nos próximos quatro anos. Mas ressalvou que, em política, "nada é impossível". E criticou Lula: "Ele quer é acusar. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, não há como dialogar com quem não quer dialogar".

Como o sr. vê a situação hoje?

Como todo brasileiro, com muita preocupação. Sem esperança, não vendo uma saída. É um momento bastante sombrio.

A ponto de ter impeachment?

Impeachment não é uma coisa desejável e ninguém se propõe a liderar isso. O PT usa o impeachment para dizer que o PSDB quer, mas não é verdade. Impeachment é como bomba atômica, é para dissuadir, não para usar.

O panelaço de domingo e a manifestação de 15 de março podem mudar alguma coisa?

Essa manifestação vai ser realmente grande, mas é produto das redes sociais, de vários setores da sociedade, independentes uns dos outros, por motivos diferentes. E totalmente independente dos partidos.

Dá para comparar com 2013?

Sociologicamente, vai ser uma comparação interessante. Em 2013, era contra tudo, agora é direcionada contra o governo. Mas vamos esperar para ver. O PSDB faz bem em não chamar para a rua. A rua, neste momento, não é dos partidos, é do povo. É o povo que vai para a rua.

Se as manifestações forem num crescendo, o sr. não vê horizonte de impeachment?

Eu não posso dizer que seja impossível, porque as coisas não são assim em política. Mas o horizonte mais provável não é que vá para esse lado.

A conexão (de Dilma) com o Collor é que ele não sabia como manejar com o Congresso. Mas só nisso.

E o peso da Petrobrás na crise?

É muito grande. A Petrobrás é uma empresa vital para o Brasil. A despeito das intrigas do PT, sobretudo do Lula, de que queríamos privatizar a Petrobrás, isso tudo era uma grande mentira. Não cabe privatizar a Petrobrás. Cabe, sim, despolitizá-la, despartidarizar a Petrobrás.

Como o sr. vê agora a venda de R$ 39 bilhões em ativos?

Vai vender na bacia das almas, no pior momento. Isso, sim, é contra o interesse da Petrobrás e do Brasil. No limite, a crise real é política, é de confiança. Sem confiança, não se cria esperança. Sem esperança, a recessão é só recessão, o ajuste é só o ajuste, só um mal estar.

Na TV, a presidente disse que tudo isso é passageiro, até o final do ano. Há condições?

A quebra de confiança foi grande. Não se refaz do dia para a noite.

E a crise no Congresso?

O governo criou caso com a própria base, então fica difícil. A presidência do Senado devolveu a medida provisória das desonerações. Foi um ato de rebeldia e força. É um sinal de que o processo congressual está descontrolado e não vejo como este governo tenha como reagir à altura. É muito ruim que o governo não reconheça nenhum erro.

Foi o FHC?

Foi o FHC! É patético, mas eu fico até envaidecido, porque, depois de mais de 12 anos, eu até fico pensando: 'Meu Deus, que força que eu tive!'

O envolvimento de 47 políticos na Lava Jato ajuda o Planalto?

De certo ponto, sim. Mas acho que o importante para o Planalto é dar eficiência ao Congresso, para conseguir as votações do ajuste. Isso não dá eficiência ao Congresso, muito pelo contrário. Dá é paralisia.

Alguma comparação histórica com o momento atual?

Eu só vi uma situação parecida em 1963, quando houve um descolamento entre o Congresso e o governo, e o governo foi perdendo a capacidade de governar. Quando o Congresso percebe que o Executivo não tem agenda, está tonto, fazendo uma agenda que não é a dele, o Congresso fica mais inerte. E, se você perde a força aqui, você perde a força no mundo.

Alguma conexão com Collor?

Não creio. A conexão com o Collor é que ele não sabia como manejar com o Congresso, não tinha amor pelo Congresso, ficava isolado. Nesse sentido, há alguma similitude, mas só nisso. Na época, a sociedade sancionou o impeachment, Collor não reagiu e os partidos tinham condição de operar a transição. Não vejo a mesma coisa hoje.

A crise joga o PMDB para o PSDB?

Não para o PSDB, mas para a oposição. O PMDB já está na oposição e com razão. Que ministérios eles têm? Qual o peso deles? Não tem. O PMDB não participa da negociação política, das decisões do governo.

O senador Aloysio Nunes fala em "deterioração controlada" nos próximos quatro anos. Se as ruas são movidas pelas redes sociais e faltam lideranças políticas, quem pode controlar o quê?

O PSDB está digerindo a crise, tentando entender até onde vai ela. O que ele quis dizer é que não haverá uma ruptura, as coisas vão ficando mais desengonçadas, mas se mantêm.

Quatro anos não é muito?

É uma possibilidade. Nós já vimos outras fases assim, quando os governos vão cozinhando o galo em fogo brando. A novidade é que a sociedade está mais inquieta, mais ativa. Se os partidos e os líderes políticos não responderem, eles perdem força. Um desafio para todos nós.

Na redemocratização, no Collor, nos momentos graves, havia grandes líderes no Congresso, na sociedade, no empresariado, na Igreja, na área militar. E hoje?

Esse ponto é muito importante. A crise hoje não é só dos partidos, é mais ampla. Você tem dificuldade até de diálogo com a sociedade. Um exemplo. No passado, você tinha cardeais que sabia o nome, conhecia pessoalmente, como o d. Paulo. Até hoje, você fala e todo mundo sabe quem são. Agora, não. E isso vale para a OAB, ABI. A UNE virou departamento de um partido. Mesmo na área empresarial, não vejo quem são as lideranças com quem você possa dialogar num momento como este.

Nunca me neguei a discutir uma pauta. Agora, essa discussão não pode ser um conchavo, tem que ser uma discussão sobre como melhorar a situação política, econômica e social.

No Congresso, não é pior? Os presidentes da Câmara e do Senado estão sendo investigados.

Bem, até que esses dois atuam e, no próprio PSDB, raramente nós tivemos uma bancada de senadores tão poderosa. Só não sei no que vai dar tudo isso da Lava Jato. E tem uma coisa: a circunstância é que faz as lideranças. O desafio é tão grande que vai empurrar as lideranças, senão para controlar a onda, porque às vezes é impossível, pelo menos surfar nela.

A inclusão do senador Anastasia enfraquece o PSDB?

Ele foi posto lá para isso.

Por quem, presidente?

Ora, quem? O responsável final é o procurador. A acusação é vaga, parece história da carochinha. Se encontrarem, vale aquilo: errou, pagou. Mas acho que não vai chegar a isso.

Qual a viabilidade de conversas entre o sr. e o ex-presidente Lula e de um pacto PT-PSDB?

Qual seria o significado de um encontro meu com o presidente Lula? Ele tem que, primeiro, pacificar lá a situação do partido dele. E qual é a pauta? Nunca me neguei a discutir uma pauta. Agora, essa discussão não pode ser um conchavo, tem que ser uma discussão sobre como melhorar a situação política, econômica e social. Quais são os itens? Dá para convergir? Não dá? Mas a visão do presidente Lula não é essa, ele quer o contrário, quer acusar. Ele quer dizer quem são os bons, quem são os maus. Ele é o bom, nós somos os maus. Então, é quase impossível. Não há como dialogar com quem não quer dialogar.

E a convocação que ele fez ao "exército do Stédile"?

É uma retórica preocupante, porque quem foi presidente da República não tem o direito de brincar com questões sérias. Convocar para a briga e menosprezar inclusive o Exército, porque citou um outro exército, é indesculpável. Todo mundo está vendo o que está acontecendo aqui. Um descalabro.

A crise pode dividir o Brasil como na Venezuela?

Espero que não e espero que aqui não seja meio a meio. Se o Lula insistir na divisão, ele vai ficar com 20%.

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