Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

'Não adianta berrar contra o governo ou fazer acordo com a oposição', diz Reale Jr sobre Cunha

Um dos autores do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, o jurista Miguel Reale Jr diz que é 'muito difícil' Eduardo Cunha terminar seu mandato

Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2015 | 18h45

São Paulo - Um dos signatários do principal pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff protocolado na Câmara dos Deputados, o jurista Miguel Reale Jr avalia que o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não tem condições políticas de usar o rito do processo para tentar se aproximar do governo ou negociar com a oposição para evitar a cassação de seu mandato.

"Não adianta berrar contra o governo ou fazer acordo com a oposição. A situação dele é muito frágil e não depende de acordos políticos. É muito difícil que Cunha preserve seu mandato com os fatos que estão sendo alegados", disse Reale ao Estado.

 

Ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, o jurista, que é ligado ao PSDB, apresentou um requerimento em conjunto com os juristas Hélio Bicudo, que foi um dos fundadores do PT, e Janaina Paschoal. "Qual é a arma que ele tem? Por acaso o governo vai protegê-lo e impedir que ele seja cassado se entender que ele vai indeferir (o pedido)? Existem acusações que são de uma gravidade significativa", pontua Reale.  

O PSOL e a Rede entraram nesta terça-feira, 13, com uma representação no Conselho de Ética da Câmara contra Cunha por quebra de decoro parlamentar. O pedido está fundamentado no documento enviado na semana passada ao PSOL pela Procuradoria-Geral da República (PGR), após um pedido formal do partido, confirmando que Cunha mantém contas bancárias secretas na Suíça. 

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu nesta terça-feira três liminares que suspenderam as regras de tramitação determinadas por Cunha para abertura do processo de impeachment. Para evitar que o pedido fosse "contaminado" pelo embate entre STF e Câmara, a oposição optou por apresentar na sexta-feira um novo pedido, que também será assinado pelos três juristas. 

 

"Vamos apresentar na sexta-feira as mesmas petições justapostas. Estamos fazendo recorta e cola. Mera aglutinação", explica Reale. "Eu entendo que não haveria necessidade de fazer um novo pedido (de impeachment). Tecnicamente falando, o presidente Cunha poderia receber a nossa denúncia. O problema é que o governo interpretou essas liminares com uma amplitude que ela não tem", completa Janaina Paschoal. 

 

Líder do PSDB na Câmara, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) se reuniu nesta quarta-feira em São Paulo com Hélio Bicudo e Janaina Paschoal para discutir as bases do novo pedido. Sobre a suposta aproximação de Cunha com o governo para salvar seu mandato, Janaína disse que o deputado terá a chance de mostrar de que lado ele está. "Se ele não aceitar, é porque está ao lado do governo", afirma a jurista.   

 

Recurso. Os juristas responsáveis pelo pedido de impeachment defendem, ainda, que o rito estabelecido por Cunha está correto. Segundo o presidente da Câmara, um eventual indeferimento do pedido poderia ser alvo de um recurso da oposição, que seria votado em plenário e precisaria de uma maioria simples. 

 

Segundo o STF, porém, esse trâmite não está previsto na Lei 1.079, de 1950, que trata do rito do processo de impedimento. "A questão do recurso não tem justificativa nenhuma. Ele não está passando por cima de nenhum direito constitucional. Não existe ilegalidade em haver recurso contra uma decisão dele. Está no regimento interno, no artigo 218", diz Reale. 

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