Na corda bamba

Presidência da Câmara pode levar PSDB a sair da base de apoio a Temer

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

Quem ouvir o senador Aécio Neves dizer que o PSDB apoiará o deputado Rodrigo Maia caso ele encontre uma brecha no regimento que o permita concorrer à reeleição na presidência da Câmara, pode ter certeza: é conversa de mineiro. Há em Brasília quem jure ter ouvido isso de Aécio, mas há muito mais gente achando que se o senador disse isso é porque ou tem absoluta segurança de que Rodrigo não terá base legal para disputar ou quis levar deliberadamente o interlocutor ao erro.

Verdade ou boato, fato é que os tucanos não só não cogitam desistir de presidir a Câmara a partir de 1.º de fevereiro do ano que vem como esperam que o PMDB cumpra o acordo feito durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, e apoie o nome de um tucano. Não um apoio qualquer. Esperam empenho firme e forte engajamento dos pemedebistas para a construção de uma candidatura de consenso na base governista.

Estaria tudo correndo conforme o combinado não fosse a entrada em cena da hipótese de Rodrigo Maia disputar mais um mandato. A ideia vem ganhando corpo e adeptos. A movimentação obviamente foi percebida e muito mal recebida pelas bancadas do PSDB, tanto na Câmara quanto no Senado. A partir dessa percepção começou a se desenhar no horizonte a formação do que pode vir a ser uma tempestade.

Deputados suspeitam que a candidatura do atual presidente seja não apenas bem vista como de alguma forma incentivada pelo Palácio do Planalto.

Nas conversas entre eles chegam a apontar uma declaração feita por Rodrigo logo após sua eleição, defendendo a candidatura de Michel Temer para a Presidência da República em 2018, como “prova” de que as desconfianças têm razão de ser.

O ambiente entre parlamentares tucanos pode ser definido no momento como de inquietação; em trânsito para a insatisfação. Um estágio mais avançado, o conflito gerador de rompimento ainda não se apresenta, mas tudo depende da disposição do governo em dirimir quaisquer dúvidas. Por ora os tucanos têm certeza do envolvimento do PMDB e do interesse do PT em alimentar turbulências na seara governista.

No DEM, partido do presidente da Câmara, corre a versão (em causa própria) de que o PSDB estaria mais disposto a influir na disputa do que em ocupar o cargo. Uma maneira de mudar o roteiro original sem se contrapor aos tucanos. Nada nesse assunto tem caráter oficial nem é dito abertamente. Inclusive porque se a candidatura de Rodrigo Maia não encontrar abrigo no regimento (é vedada a reeleição na mesma legislatura) o tema não estará em pauta.

Mas no governo a candidatura é tida como uma possibilidade real. Daí a preocupação dos tucanos que já lembram nas tratativas internas do episódio da eleição de Aécio Neves para a presidência da Câmara, em 2001, ocorrida a despeito de um acordo feito com o PFL que pretendia ver Inocêncio de Oliveira no cargo. Em função disso os pefelistas romperam a aliança com o PSDB e, segundo palavras recentes de Fernando Henrique Cardoso para um correligionário, “a partir dali tudo se desorganizou e ficou mais difícil governar”. Em 2002, o PFL não apoiou a candidatura de José Serra.

Evidentemente, a história não é rememorada agora por acaso. O PSDB faz absoluta questão do cumprimento do acordo, firmado entre as cúpulas dos partidos e convalidado por Temer e FH em encontro já depois da posse definitiva do atual presidente. Argumenta-se entre os tucanos que um partido com 50 deputados federais, 12 senadores, papel preponderante no processo do impeachment e desempenho positivos nas últimas eleições municipais não pode ser tratado “assim”.

Por “assim”, entenda-se por indiferença ao peso do aliado e à sua disposição de reagir. Com pulso firme e braço forte.

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