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MPF-RJ pede à Justiça informações sobre investigados no caso Riocentro

Luciana Nunes Leal - O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2014 | 18h 59

Procuradores reclamam da 'recusa sistemática' do Exército Brasileiro em fornecer dados sobre militares; depoimentos revelam que intenção era causar comoção com morte de artistas

Rio - Além de denunciar cinco militares e um civil por envolvimento na explosão da bomba do Riocentro, o Ministério Público Federal (MPF) do Rio de Janeiro pediu à Justiça, nesta terça-feira, 18, que cobre ao Exército informações sobre as fichas funcionais de oficiais investigados e, em caso de recusa, emita mandato de busca e apreensão para obter os documentos.

Os procuradores reclamam da "recusa sistemática do Exército Brasileiro" em fornecer informações solicitadas pelo MPF. O grupo de trabalho investiga o destino de vários militares transferidos de suas funções depois do atentado, frustrado pela explosão acidental de uma das bombas no colo do sargento Guilherme do Rosário, que morreu na hora.

O MPF pede também que o Superior Tribunal Militar (STM) envie a íntegra dos dois Inquéritos Policiais Militares (IPM's) que investigaram o caso, em 1981 e em 1999. "As Forças Armadas permanentemente se recusam a prestar colaboração", disse, na segunda-feira, 17, o procurador Antonio Cabral.

Questionado pelo Estado sobre as queixas da Procuradoria, o Exército ainda não respondeu.

A denúncia do Ministério Público foi distribuída nesta terça-feira, 18, para a 6ª Vara Criminal da Justiça Federal e está a cargo da juíza Ana Paula Vieira de Carvalho. A Justiça poderá aceitar ou rejeitar a denúncia ou pedir mais informações aos procuradores.

O MPF denunciou três militares e um ex-delegado por tentativa de homicídio duplamente qualificado, entre outros crimes, com pena mínima de 36 anos de prisão: os generais reformados Newton Cruz, chefe da Agência Central do Serviço Nacional de Informações (SNI) na época do atentado e Nilton Cerqueira, então comandante da Polícia Militar do Rio; o coronel reformado Wilson Machado, dono do carro onde a bomba explodiu e companheiro do sargento Rosário na missão, e o ex-delegado Claudio Guerra, a quem caberia, segundo os procuradores, fazer prisões de falsos suspeitos do atentado, que seria atribuído a grupos "subversivos".

O objetivo era provocar o recrudescimento da ditadura militar e interromper o processo de abertura. Foram denunciados também o general reformado Edson Sá Rocha, por associação criminosa armada, e o major reformado Divany Carvalho Barros, por fraude processual.

Depoimentos. Estado teve acesso a trechos de depoimentos prestados por alguns denunciados. Em um deles, Divany, agente do Destacamento de Operações de Informações (DOI), confessou ter ido ao local da explosão, para recolher provas que pudessem incriminar os militares. "Quando cheguei, eu disse: 'vou pegar tudo que tem aqui e levar para o coronel'", disse o major reformado aos procuradores, citando o então comandante do DOI, coronel Julio Miguel Molinas Dias, assassinado em 2012.

Em outro depoimento, Newton Cruz revela que soube do plano de explosão da bomba duas horas antes do atentado e alega não ter tido meios para impedir a ação. Também relata o encontro, realizado um mês depois do atentado, com dois militares do DOI que planejavam um novo atentado. Cruz se recusou a dizer os nomes dos militares. "Não me lembro e, se lembrasse, não ia dizer", afirmou o general.

Morte de artistas. O delegado Claudio Guerra disse que sua missão no Riocentro "era efetuar prisões dos que seriam os autores da coisa ali" e revela que uma das bombas seria colocada no palco do show em homenagem ao Dia do Trabalho. "A comoção seria a morte de artistas", revela.

Já o general reformado Nilton Cerqueira diz que soube que "havia uma ameaça de bomba", mas não explica por que determinou a suspensão da operação policial montada para aquela noite no Riocentro.