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Política

Movimentação na Paulista é vista como oportunidade para comércio de camisas e bonecos infláveis

De salgadinhos a itens contra o governo Dilma e o PT, ambulantes tentam conseguir dinheiro para pagar contas; segundo eles, o mercado de trabalho está difícil e falta tempo para a família

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Rafael Italiani,
O Estado de S.Paulo

13 Março 2016 | 19h00

Desempregados com formação e jovens atrás de complemento de renda eram a maioria entre os ambulantes que aproveitaram o protesto na Avenida Paulista, neste domingo, 13, para aliviar as contas da casa. Eles vendiam de tudo: comidas, bebidas, artesanatos e, principalmente, camisetas e bonecos infláveis contra a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. E dependendo do alvo do protesto, o preço era diferenciado.

Enquanto o boneco inflável da presidente era vendido a R$ 20, os do ex-presidente Lula saiam por R$ 10. Segundo vendedores que comercializaram os pixulecos fazendo bicos a R$ 100 pelo dia de trabalho, foram os "patrões" que orientaram a venda como forma de deixar a Avenida Paulista tomada de bonecos do ex-presidente. "Vendendo mais barato a chance de as pessoas comprarem o pixuleco dele é maior", explicou Andressa Silveira, de 18 anos. Moradora do bairro do Limão, na zona norte, ela complementa a renda mensal trabalhando nos dias de protesto sempre comercializando os bonecos. "Se está difícil para rico, imagina para mim." Andressa ganha R$ 990 por mês, não tem dinheiro para pagar a faculdade e ainda não sabe o que fazer.

Em uma das calçadas, o ambulante Gebson Silva, de 30, vendia doces caseiros a um preço médio de R$ 6. Até o final da tarde ele tinha faturado R$ 400. "Mas meu lucro é muito pequeno. Fico com no máximo R$ 150. O resto é para comprar os ingredientes e pagar o combustível." Silva tem curso superior e é auxiliar de enfermagem, mas está desempregado há quatro anos e diz ter distribuído mais de 400 currículos nos últimos meses. Segundo ele, sua rotina é fugir dos "rapas" da Guarda Civil Metropolitana (GCM). "Queria estar em um hospital ajudando as pessoas e não correndo das apreensões." Ele conta que cada vez que a Prefeitura toma os seus produtos, o prejuízo é de R$ 400.

Ele também reclama de estar "estacionado" economicamente. "Com muito esforço eu saí da classe D e fui para a C. Agora é praticamente impossível subir para a B. Estou lutando para não voltar a ser pobre outra vez." O ambulante trabalha 18 horas por dia e não consegue ver a filha de três anos. "Estou há quatro anos sem férias. Aos finais de semana eu trabalho, e é impossível levar a família para passear. Espero que esses protestos também sejam bons para o povo. Somos nós que movemos o País."

Já o ambulante Edinaldo Caetano dos Santos, de 57, vê as oportunidades de emprego diminuírem por causa da idade. Neste domingo ele vendia camisetas contra a presidente Dilma. "Tenho curso de segurança e me especializei porque a promessa quando o Lula assumiu era de melhora. Me dediquei e hoje vejo que sou considerado velho pelos patrões. Ninguém quer contratar um segurança de quase 60 anos." Santos tem seis filhos: a mais nova está com 12 anos e o mais velho com 22 anos. Cético em relação aos protestos, ele acredita que sua vida "não tem muito o que mudar, com ou sem PT". "Político só lembra do povo quando precisa de voto ou puxar o tapete dos outros."

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